O Ministério Público Federal (MPF) abriu nesta sexta-feira, 3 de julho, um inquérito civil para apurar se a União regulamentou e fiscalizou adequadamente a publicidade de apostas durante as transmissões da Copa do Mundo. A investigação alcança anúncios dirigidos a jovens, possíveis mensagens abusivas ou enganosas e comentaristas que divulgam palpites durante os jogos, levando o conflito para a eleição presidencial e para a disputa pelo Senado no Paraná.
A apuração foi instaurada pela Procuradoria da República no Distrito Federal após denúncias sobre peças publicitárias exibidas durante partidas transmitidas pela CazéTV no YouTube. O procedimento não concluiu que o governo, a plataforma, os anunciantes ou os profissionais envolvidos cometeram irregularidades. O MPF procura saber se houve omissão ou insuficiência na aplicação da Lei nº 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets.
O órgão requisitou informações à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ao Banco Central, ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), aos canais responsáveis pelas transmissões e a instituições de ensino e pesquisa. O objetivo declarado é verificar quais medidas impedem que a propaganda alcance crianças, adolescentes e outros grupos vulneráveis.
A Copa concentra audiência familiar, contratos milionários de publicidade e transmissões acompanhadas em celulares, televisores e redes sociais. Quando o anúncio aparece dentro da conversa entre narradores e comentaristas, a fronteira entre conteúdo esportivo, opinião e propaganda fica menos visível para o público.
Esse é um dos pontos centrais do inquérito. O MPF pretende examinar a conduta de profissionais que apresentam palpites durante as partidas e verificar se a comunicação comercial respeita as regras de proteção ao consumidor. A discussão não criminaliza o futebol nem o torcedor. Ela procura identificar quem recebe pela publicidade e quem assume os custos sociais quando a fiscalização não consegue proteger o público vulnerável.
No Paraná, a deputada federal e pré-candidata ao Senado Gleisi Hoffmann (PT) já apresentou uma posição objetiva. O Projeto de Lei 3.518/2024 proíbe ações de comunicação, publicidade e marketing de apostas de quota fixa em todo o território nacional, inclusive na internet. O texto também prevê a retirada de campanhas e o bloqueio de páginas após notificação do Ministério da Fazenda.
A proposta foi apresentada em 11 de setembro de 2024 e anexada ao Projeto de Lei 3.511/2024, que reúne iniciativas semelhantes. Nesta sexta (3/7), o conjunto ainda aguardava parecer na Comissão de Comunicação da Câmara dos Deputados. Um relatório favorável, com substitutivo, chegou a ser apresentado em agosto de 2025, mas a inclusão posterior de novos projetos levou a matéria novamente ao relator.
Gleisi retomou o tema nas redes sociais ao destacar a adesão do lateral Danilo, da Seleção Brasileira, à campanha “Block no Tigrinho”. A parlamentar relacionou a exposição promovida por figuras públicas ao endividamento, à dependência e às perdas financeiras suportadas pelas famílias.
A defesa da proibição total diferencia Gleisi de propostas que aceitam a publicidade, mas estabelecem horários, avisos obrigatórios ou limitações de público. O inquérito do MPF não determina qual modelo deve ser adotado. Ele investiga se as regras existentes e a fiscalização federal foram suficientes durante um evento de alcance mundial.
A apuração também cria uma cobrança direta sobre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Executivo precisará demonstrar quais medidas adotou para impedir publicidade abusiva, como monitora as transmissões e quais punições aplica quando crianças e adolescentes são alcançados.
A mesma pergunta deve chegar ao pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e aos postulantes ao governo e ao Senado pelo Paraná. Antes das convenções, cada campo político precisa esclarecer se defende proibição completa, restrições de horário, veto a inserções feitas por comentaristas ou apenas a manutenção das normas atuais. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem como os principais polos da disputa presidencial de 2026.
A publicidade enganosa exige outra resposta concreta. Os candidatos devem informar quais penalidades defendem para empresas, emissoras, plataformas, influenciadores e profissionais que apresentem apostas como renda fácil, investimento ou solução financeira. Não basta declarar preocupação com o vício sem explicar quem fiscaliza, como a infração será comprovada e quanto custará o descumprimento.
O conflito econômico é direto. As bets financiam publicidade, patrocínios esportivos e parte das receitas das transmissões. Do outro lado estão famílias endividadas, jovens expostos a mensagens comerciais e órgãos públicos responsáveis pelo atendimento de consumidores e pessoas com comportamento compulsivo.
A Copa do Mundo transformou a insuficiência regulatória em problema eleitoral. O placar relevante não será medido pelos discursos contra ou a favor das apostas, mas pelas regras que cada candidatura estiver disposta a aprovar, fiscalizar e fazer cumprir.
Publicidade de bets no futebol deve ser proibida ou submetida a limites mais rigorosos? Acompanhe no Blog do Esmael as respostas das campanhas e os próximos atos do inquérito do MPF.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




