O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu acelerar a tramitação da PEC da escala 6×1 depois que a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) aprovou, na quarta-feira (22), a admissibilidade das propostas. Motta disse que quer instalar a comissão especial rapidamente e levar o tema ao plenário ainda em maio.
A votação da CCJ não mudou a regra de trabalho de imediato. O que a comissão fez foi liberar o texto para seguir adiante. Agora começa a fase que interessa de verdade: a comissão especial vai discutir o mérito, isto é, o conteúdo final da mudança, antes da batalha no plenário da Câmara.
Estão no mesmo pacote a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que reduz a jornada das atuais 44 para 36 horas semanais ao longo de dez anos, e a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que prevê semana de quatro dias e limite de 36 horas. As duas propostas avançaram por unanimidade em votação simbólica na CCJ.
Motta tenta ocupar o centro do conflito. Em 15 de abril, ele já havia dito que há “vontade política” no Parlamento para aprovar o fim da escala 6×1, mas rejeitou ampliar desonerações para bancar a mudança. Em 22 de abril, repetiu a linha do avanço “com equilíbrio”, numa tentativa de segurar a pressão social sem romper de frente com o empresariado.
Do lado do governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu entrar no jogo com a própria caneta. Em 14 de abril, o Planalto enviou projeto de lei com urgência constitucional para reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, garantir dois dias de descanso remunerado e consolidar a escala 5×2, sem corte salarial. No dia seguinte, Lula pediu mobilização das centrais sindicais para pressionar o Congresso.
A movimentação do Planalto tem calendário e alvo. Em 16 de abril, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT-CE), disse que maio, mês do trabalhador, será usado para dar mais força ao debate e afirmou que o governo rejeita compensar a mudança com novas desonerações. Em tradução simples: o Planalto quer transformar a pauta trabalhista em vitrine política às vésperas da eleição de 2026, mas sem abrir mão de arrecadação para agradar patrões.
A resistência empresarial já está organizada. Em audiência pública na Câmara, representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e de outras entidades defenderam que eventual redução de jornada seja negociada setor por setor, e não imposta de forma geral. O argumento é conhecido: aumento de custo, risco para emprego formal e perda de competitividade.
O relator Paulo Azi (União-BA), porém, deu um recado que pesa. Ao defender a admissibilidade, afirmou que o fim da escala 6×1 responde a uma demanda social e penaliza hoje, sobretudo, trabalhadores de baixa renda, mulheres e jovens. A fala importa porque veio de um deputado de centro-direita, fora da base lulista, e ajuda a mostrar por que a pauta saiu do nicho sindical e entrou no coração da agenda da Câmara.
É esse o ponto político da semana em Brasília. A discussão deixou de ser apenas trabalhista e virou disputa por narrativa. O governo quer colar sua imagem no trabalhador. Motta quer mostrar comando sobre uma pauta popular sem entregar a agenda inteira ao Planalto. O empresariado tenta empurrar freios, compensações e transição. E a oposição sabe que votar contra, de forma seca, tem custo alto diante de um tema que ganhou apelo social e mobilização organizada.
Se Motta cumprir o roteiro que anunciou, maio será o mês da primeira grande prova de força da Câmara sobre a escala 6×1. A admissibilidade já passou. Agora a conta política será feita no mérito e no voto aberto, onde cada lado terá de dizer com clareza se está do lado do tempo de vida do trabalhador ou do velho medo patronal embalado em planilha.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




