Na ausência de agenda própria nos estados, pré-candidatos da direita à Câmara dos Deputados passaram a engrossar a caminhada liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), transformando o ato em uma vitrine eleitoral improvisada, com mutirão de selfies, discursos reciclados e busca desesperada por visibilidade.
A marcha, batizada de “Acorda Brasil”, saiu de Paracatu (MG) e segue até Brasília, com cerca de 240 km. Oficialmente, o protesto é contra as condenações dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Na prática, virou ponto de encontro de políticos em pré-campanha, muitos deles sem base consolidada ou compromissos locais.
Bastidores da direita indicam que a adesão não é ideológica, mas oportunista. Parte expressiva dos que aparecem ao lado de Nikolas não tinha compromissos relevantes em seus redutos e enxergou na caminhada uma chance de colar a própria imagem a um parlamentar com alto engajamento digital.
Da fidelidade ao arrependimento
No grupo há de tudo. Bolsonaristas raiz, renegados que romperam com Jair Bolsonaro (PL) e, após a divulgação de pesquisas, tentaram reatar, além de novatos que jamais tiveram vínculo real com o ex-presidente.
O denominador comum é o cálculo eleitoral. Pesquisas internas indicam que Bolsonaro já não transfere votos como antes em algumas regiões, enquanto Nikolas emerge como ativo eleitoral próprio, especialmente entre jovens conservadores e eleitores mobilizados por redes sociais.
Uma bancada em formação
Supondo que boa parte dos pré-candidatos que desfilam ao lado de Nikolas se eleja em outubro, o deputado mineiro poderá sair das urnas com algo inédito no campo da direita, uma bancada informal própria, mais leal a ele do que ao bolsonarismo tradicional.
Nesse cenário, aliados avaliam que Nikolas deixaria de ser apenas herdeiro do bolsonarismo para se tornar concorrente interno, capaz de ameaçar, no curto prazo, a hegemonia do grupo ligado diretamente a Bolsonaro e, no horizonte de 2030, disputar a liderança da direita nacional.
Passeata sem estrutura, mas com palco político
A Folha de S.Paulo acompanhou o trajeto e registrou falta de estrutura, riscos à segurança apontados pela Polícia Rodoviária Federal e críticas da oposição. Mesmo assim, o que não faltou foi palco político.
Deputados federais, senadores, vereadores do interior e pré-candidatos disputaram espaço ao redor de Nikolas para fotos e vídeos. O próprio parlamentar, embora afirme não querer a instrumentalização política do ato, circula cercado por assessores e escolta, enquanto o entorno vira passarela de ambições.
Paraná, presente
O Blog do Esmael identificou alguns pré-candidatos a deputado federal na marcha de Nikolas Ferreira: Cristina Graeml (União), Filipe Barros (PL), Guilherme Kilter (Novo), Delegado Tito Barrichello (União). Nós também apuramos que o delegado Fernando Francischini (Solidariedade), por questões de saúde na família, não participa da caminhada. “Mas eu estava programando”, disse.
O recado das urnas
A marcha revela mais do que indignação. Expõe o vácuo de liderança na direita e a corrida aberta por quem ocupará esse espaço no pós-Bolsonaro.
Nikolas Ferreira caminha fisicamente rumo a Brasília, mas politicamente avança para ocupar um lugar central no campo conservador. Se conseguirá substituir o bolsonarismo ou apenas fragmentá-lo, a resposta virá nas urnas.
No fundo, a marcha diz menos sobre Lula e mais sobre a sucessão de poder na direita, hoje em aberto, com o bolsonarismo em retração e novos líderes testando força. Por isso, Nikolas oferece carona para pré-candidatos conservadores.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




