A Venezuela entrou em um dos capítulos mais delicados de sua história recente após a chegada de Nicolás Maduro a um tribunal federal dos Estados Unidos, em Nova York, enquanto o presidente Donald Trump ampliou ameaças a outros países e reforçou o discurso de tutela sobre Caracas.
Nicolás Maduro, presidente deposto da Venezuela, e a esposa, Cilia Flores, foram levados sob forte escolta ao tribunal federal no sul de Manhattan, onde passaram pela primeira audiência formal diante da Justiça americana. O casal responde a acusações de narcotráfico, narcoterrorismo e conspiração para importar cocaína, segundo denúncia já tornada pública pelas autoridades dos EUA.
A apresentação ao juiz ocorre dois dias depois de uma operação militar americana em Caracas, que resultou na captura de Maduro. O governo dos Estados Unidos descreve a ação como uma operação de aplicação da lei. Para aliados regionais e setores da comunidade internacional, trata-se de um sequestro de chefe de Estado, com graves implicações para o direito internacional.
Pouco antes da audiência, Donald Trump afirmou que seu governo está “no comando” da Venezuela. O presidente americano também sugeriu a possibilidade de ações contra outros países, incluindo Colômbia, México, Cuba e a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, ampliando a instabilidade diplomática.
O presidente Trump disse que os dias de Cuba estavam contados e que seu governo poderia voltar suas atenções para a ilha comunista em seguida.
“Cuba parece estar prestes a ruir”, disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One. “Não sei se eles vão resistir, mas Cuba agora não tem renda. Toda a sua renda vinha da Venezuela, do petróleo venezuelano.”
As declarações provocaram reações imediatas. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, advertiu que qualquer tentativa de deter um líder eleito poderia desencadear forte reação popular. Já a primeira-ministra da Dinamarca cobrou publicamente que Washington cesse as ameaças envolvendo a Groenlândia.
Em Caracas, o discurso adotado foi distinto. A presidente interina Delcy Rodríguez divulgou mensagem defendendo diálogo e cooperação com os Estados Unidos, desde que respeitado o direito internacional. Rodríguez foi declarada chefe de Estado pelo Supremo venezuelano após a captura de Maduro e tenta equilibrar a pressão externa com a necessidade de estabilidade interna.
Na Assembleia Nacional, o deputado Nicolás Maduro Guerra, filho do ex-presidente, classificou a ação americana como uma “regressão perigosa ao imperialismo” e pediu solidariedade internacional. Parlamentares denunciaram violação da soberania venezuelana e alertaram para o precedente aberto pela captura de um chefe de Estado em exercício.
Do lado de fora do tribunal em Nova York, manifestantes se dividiram. Um grupo protestava contra a intervenção militar dos Estados Unidos, com cartazes pedindo respeito à soberania venezuelana. Outro, maior, celebrava a queda do chavismo, entoando o hino nacional da Venezuela e gritando palavras de ordem contra o antigo regime.
O episódio também chegou à Organização das Nações Unidas. O Conselho de Segurança realizou uma reunião de emergência para discutir a operação americana. O secretário-geral António Guterres afirmou estar profundamente preocupado com o desrespeito às normas do direito internacional e com o risco de desestabilização regional na América Latina.
Representantes dos Estados Unidos negaram qualquer ocupação militar e sustentaram que não há guerra contra o povo venezuelano. Ainda assim, países como Brasil, Colômbia, Argentina e Irã solicitaram a palavra no debate, demonstrando o alcance global da crise.
O mercado reagiu rapidamente ao novo cenário. Ações de grandes petroleiras americanas subiram e o preço do barril avançou, refletindo a expectativa de abertura do setor de petróleo venezuelano ao capital privado dos Estados Unidos. O controle das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo tornou-se um reforço estratégico no cenário geopolítico.
A apresentação de Maduro à Justiça americana não encerra o conflito, aprofunda. A captura de um chefe de Estado por meio de força militar, seguida de ameaças a países vizinhos e aliados, recoloca a América Latina no centro de uma lógica de poder que parecia superada. O desfecho desse episódio será político, geopolítico e histórico.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




