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Luz e água fazem Curitiba superar inflação nacional

Curitiba registrou inflação de 0,42% em junho de 2026, mais que o dobro dos 0,16% apurados no país, porque a queda dos alimentos foi neutralizada pelo aumento da energia elétrica e da tarifa de água. O resultado transfere o alívio observado no supermercado para as contas fixas das famílias.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) da capital paranaense acelerou em relação aos 0,29% de maio. Curitiba teve a terceira maior inflação mensal entre as 16 áreas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atrás apenas de Brasília, com 0,52%, e São Luís, com 0,43%.

O retrato mensal, porém, não significa que Curitiba já tenha inflação acumulada superior à brasileira. A capital soma 2,83% de janeiro a junho e 3,61% em 12 meses. No país, os índices chegam a 3,36% no ano e 4,64% nos últimos 12 meses. A diferença está no choque concentrado de junho sobre serviços que o consumidor não consegue retirar do orçamento.

A alimentação e as bebidas recuaram 0,24% no país, depois de subirem 1,33% em maio. A alimentação dentro de casa caiu 0,39%, puxada por reduções no café moído, nas frutas e nas carnes. Esse movimento, contudo, não foi suficiente para compensar a pressão do grupo Habitação, que avançou 0,63% e produziu o maior impacto positivo sobre o IPCA nacional.

Em Curitiba, a energia elétrica residencial subiu 4,02% apenas no recorte de junho. O IBGE atribuiu o movimento à incorporação do reajuste de 19,55%, vigente desde 24 de junho. A tarifa de água e esgoto aumentou 1,37% no mês, sob efeito de uma correção de 2,52% aplicada desde 17 de maio.

A resposta à pergunta do consumidor está na composição do índice. O IPCA não mede apenas comida. Ele acompanha uma cesta que inclui moradia, transporte, saúde, educação, comunicação e outros gastos. Quando luz e água sobem de forma concentrada, a queda de parte dos alimentos pode não ser suficiente para reduzir o custo médio de vida.

O peso pode ser demonstrado por uma simulação aritmética. Uma conta de energia de R$ 200 passaria para R$ 239,10 caso todo o valor estivesse submetido ao índice de 19,55%, sem mudança no consumo. O acréscimo seria de R$ 39,10 por mês. O valor real varia conforme a categoria do imóvel e a estrutura tarifária aplicada à unidade consumidora.

Na água, a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar) homologou reajuste estadual de 2,4993%, solicitado pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). Uma fatura de R$ 100, mantidas as demais condições, passaria para aproximadamente R$ 102,50. A agência informou que a correção ficou abaixo dos 4,26% de inflação do período utilizado em seu cálculo.

A diferença entre os dois serviços também define as responsabilidades. A tarifa de energia da Copel Distribuição passa pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão federal. A tarifa de saneamento é analisada pela Agepar, que homologou o pedido da Sanepar. Colocar todas as decisões na conta de uma única instituição apagaria competências distintas e impediria a cobrança objetiva.

A Copel precisa detalhar quanto o reajuste acrescentará às contas residenciais por faixa de consumo, quantos clientes são atendidos pela tarifa social e qual será o efeito integral nos próximos ciclos de faturamento. A Sanepar e a Agepar devem apresentar a mesma transparência sobre água e esgoto.

Ao governo Ratinho Junior (PSD) cabe informar quais medidas defenderá para reduzir o impacto das tarifas sobre famílias de baixa renda e qual acompanhamento faz dos reajustes dos serviços essenciais. A pergunta política não altera a competência regulatória da Aneel, mas exige que o Palácio Iguaçu abandone respostas genéricas diante de um aumento que já apareceu no índice oficial.

O calendário ainda produz uma advertência. Como o reajuste da energia entrou em vigor em 24 de junho e a coleta do IPCA foi encerrada em 30 de junho, o índice mensal captou somente o início da nova tarifa. Isso indica possibilidade de efeito residual em julho, embora o tamanho dependa da incorporação feita pelo IBGE e dos ciclos de faturamento.

A inflação nacional desacelerou, mas o consumidor curitibano não vive apenas da média brasileira. Em junho, a comida deu algum alívio; as tarifas reguladas retiraram parte dele antes que chegasse ao fim do mês.

Nunca é demais lembrar que a Copel foi privatizada em agosto de 2023, inaugurando um período de apagões e tarifaços. Não é de somenos a participação privada na Sanepar, que privilegia distribuição de dividendos a sócios enquanto falta água nas torneiras e a tarifa aumenta para consumidores paranaenses.

Continue acompanhando no Blog do Esmael como as decisões tarifárias da Copel, da Sanepar e das agências reguladoras atingem o orçamento das famílias paranaenses.

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