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PF aponta oferta de R$ 2 milhões para atacar o Banco Central

A Polícia Federal (PF) identificou propostas de até R$ 2 milhões para que influenciadores publicassem conteúdos favoráveis ao Banco Master e questionassem o Banco Central durante a liquidação da instituição. A decisão assinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quinta (9), também descreve contratos de confidencialidade, circulação indireta de dinheiro e levantamentos sobre jornalistas e executivos considerados obstáculos aos interesses de Daniel Vorcaro.

O valor consta da decisão que autorizou buscas contra o publicitário Thiago Miranda Silva. Segundo a PF, os contratos integravam o chamado “Projeto DV”, referência às iniciais de Daniel Vorcaro, e previam coordenação estratégica das postagens nas redes sociais. A quebra do sigilo poderia gerar multa de R$ 800 mil.

O documento confirma que o vereador Rony Gabriel (PL-RS) foi uma das pessoas procuradas. Em depoimento, ele relatou que André Salvador, representante da empresa UNLTD, abordou seu assessor oferecendo um trabalho de gerenciamento de reputação e gestão de crise para um “importante executivo”.

A proposta foi inicialmente apresentada como participação numa disputa política de repercussão nacional. Somente depois da assinatura do acordo de confidencialidade, Rony Gabriel teria sido informado de que deveria gravar vídeos sustentando que o Banco Master fora “vítima” do Banco Central e que a liquidação da instituição seria indevida.

A decisão não afirma que o vereador recebeu dinheiro, assinou contrato definitivo ou publicou o conteúdo solicitado. Portanto, a abordagem documentada pela investigação não pode ser tratada como prova de adesão à campanha.

Outra pessoa, não identificada na parte pública da decisão, teria sido abordada por Júnior Favoreto, ligado à agência GroupBR. A oferta previa contrato com a Miranda Comunicações, conhecida como Agência MiThi, em nome de Thiago Miranda. Segundo os documentos citados pelo STF, o dinheiro destinado a cumprir esses compromissos teria saído de uma conta vinculada ao próprio publicitário.

Em depoimento, Thiago Miranda afirmou que conheceu Vorcaro durante uma negociação envolvendo a venda de parte do Portal de Notícias Léo Dias por R$ 3,5 milhões. Depois da primeira soltura do empresário, o publicitário teria apresentado um plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise.

Miranda declarou que montou o “Projeto DV” dentro de sua agência e confirmou que a estratégia previa matérias sobre a prisão de Vorcaro e a investigação do Banco Master. A escolha dos assuntos teria sido desenvolvida pela Unlimited, agência de André Salvador e Anderson Antunes.

A origem do dinheiro aparece como um dos pontos mais relevantes da decisão. Miranda afirmou que pagava diretamente os influenciadores usando parte dos recursos recebidos pela negociação do portal. Os valores, segundo o depoimento reproduzido por Mendonça, eram repassados pela Super Empreendimentos e Participações, empresa atribuída a Daniel Vorcaro e já alcançada por fases anteriores da Operação Compliance Zero.

A PF sustenta hipótese mais grave. Para os investigadores, os ajustes financeiros teriam utilizado recursos provenientes do esquema de fraudes relacionado ao Banco Master. Essa afirmação integra a representação policial e ainda dependerá de comprovação no inquérito e em eventual processo criminal.

O Banco Central era o alvo porque decretou a liquidação do Master. As publicações deveriam construir a narrativa de que a instituição financeira teria sido prejudicada pelo regulador. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também identificou uma sequência de ataques ao Banco Central nas redes sociais com aparência de ação coordenada, segundo a decisão.

A investigação não ficou restrita à compra de publicações. Mensagens analisadas pela PF indicam que Vorcaro pediu a Thiago Miranda um levantamento sobre Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco, sob a justificativa de que o executivo estaria lhe causando “muito problema”.

A PF encontrou um arquivo com informações pessoais e patrimoniais de Milton Maluhy Filho e de sua mulher, Camila Moretti Maluhy. O documento, identificado como confidencial, apresentava a identidade visual da Agência MiThi e seria intitulado “Família Maluhy Relatório sobre Execução Fiscal”.

A decisão também menciona abordagens para retirar reportagens de circulação. A jornalista Consuelo Dieguez, da revista piauí, recusou o pedido e orientou o envio de uma manifestação formal. Renato Breia, sócio da Nord Investimentos, retirou um conteúdo, embora tenha demonstrado contrariedade com a abordagem. Miranda teria comemorado o resultado em mensagem enviada a Vorcaro.

Mendonça considerou que havia elementos suficientes para autorizar a busca, mas a própria PF reconheceu lacunas sobre a dimensão das condutas e a identidade de todas as pessoas envolvidas. A decisão não apresenta uma lista completa dos influenciadores contratados, não demonstra que todos receberam pagamentos e não estabelece vínculo com campanhas eleitorais ou partidos políticos.

A defesa de Thiago Miranda negou qualquer ilegalidade, afirmou que sua atuação respeitou a liberdade de expressão e declarou que o publicitário está à disposição das autoridades. Miranda e Vorcaro são investigados, e as acusações ainda não foram julgadas.

O próximo passo da PF será confrontar os equipamentos e documentos apreendidos com contratos, transferências bancárias e publicações efetivamente realizadas. A resposta poderá mostrar se o “Projeto DV” permaneceu no campo das propostas ou financiou uma rede organizada para interferir na percepção pública sobre o Banco Central.

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