O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a abertura da Hannover Messe 2026, no domingo (19), para apresentar o Brasil como destino industrial, parceiro confiável e peça de um comércio internacional com regras estáveis. No discurso, defendeu “multilateralismo justo e equilibrado”, isto é, um sistema em que vários países negociem sob regras comuns, sem guerra tarifária ditada pelas grandes potências.
O recado foi político e econômico ao mesmo tempo. Diante do chanceler Friedrich Merz (CDU), Lula associou a presença brasileira em Hanôver à reindustrialização, à atração de investimento externo e à pressão pela entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia, enquanto o Planalto tenta vender a imagem de um país estável para produzir, exportar e receber tecnologia.
O Brasil não foi convidado para um papel decorativo. É o país parceiro oficial da feira de 2026, condição que lhe dá vitrine privilegiada na maior mostra industrial do mundo. A organização da Hannover Messe apresenta o país como força da transformação industrial sustentável, e a ApexBrasil montou um pavilhão com cerca de 2.660 m², distribuído em seis halls, para reunir empresas, governo e centros de pesquisa em busca de negócios e novos mercados.
No conteúdo, Lula tentou empurrar uma mudança de posição do Brasil na cadeia global. Segundo a Reuters e o próprio governo, ele defendeu que minerais críticos e matérias-primas brasileiras não saiam do país apenas como insumo bruto, mas puxem transferência de tecnologia e produção de maior valor agregado em território nacional. Na prática, o Planalto quer vender minério, energia limpa e mercado consumidor, mas também quer arrancar da Europa investimento industrial.
Esse discurso conversa com a agenda que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) levou à Alemanha. A pasta apresentou o Brasil como ambiente seguro para investimento, citou a Nova Indústria Brasil (NIB), a reforma tributária e a convergência regulatória como ativos para atrair fábricas, infraestrutura digital e parcerias tecnológicas.
No front europeu, o calendário apertou. O governo brasileiro trata a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia em 1º de maio como peça central da viagem, e o MDIC informou que pelo menos 540 bens terão redução tarifária inicial. Em janeiro, a Reuters registrou a assinatura do acordo após 25 anos de negociação; agora, a mesma agência informou que Lula e Merz saudaram sua vigência iminente em Hanôver.
Hanôver, portanto, virou mais que cerimônia. Lula foi à Alemanha para vender a tese de que o Brasil pode voltar a crescer com indústria, energia limpa e mercado externo aberto, num momento em que o comércio global anda espremido por disputa geopolítica e protecionismo. Se a vitrine render investimento, tecnologia e espaço para a produção brasileira, o Planalto transforma discurso em ativo concreto; se não render, a viagem vira só foto bonita em feira internacional.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




