O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarcou para a Índia e a Coreia do Sul para amarrar acordos em comércio, minerais críticos, aviação e governança em inteligência artificial, num roteiro que coloca o Brasil na disputa geopolítica por cadeias produtivas e tecnologia. A viagem ocorre entre quarta-feira (18) e terça-feira (24), com paradas em Nova Deli e Seul e participação do petista numa cúpula global de IA em 19 de fevereiro.
A mensagem de fundo é direta: enquanto EUA, China e Europa brigam por chips, dados e terras-raras, o Planalto tenta trocar o papel de exportador de matéria-prima por uma posição de “parceiro que agrega valor”. Isso tem ganhadores óbvios no Brasil e também perdedores previsíveis, inclusive dentro do empresariado.
A agenda oficial prevê, na Índia, visitas de Estado e um reforço político à ampliação do acordo Mercosul-Índia, além de uma declaração Brasil–Índia sobre parceria digital. O Planalto também cita a extensão do prazo de vistos de negócios e turismo de cinco para dez anos.
No capítulo da inteligência artificial, Lula deve participar da Cúpula de Inteligência Artificial em Nova Deli em 19 de fevereiro, com público estimado em 40 mil pessoas de 50 países, e o governo brasileiro programa um evento paralelo em 20 de fevereiro, “IA para o bem de todos”, com ministros. A leitura política é simples: o Brasil quer assento na mesa onde se discute regra, risco e mercado, para não virar só consumidor de tecnologia alheia.
Na Coreia do Sul, o roteiro entre domingo (22) e terça-feira (24) inclui visita de Estado a convite do presidente sul-coreano Lee Jae Myung e adoção de um Plano de Ação Trienal 2026–2029 para elevar a relação ao nível de parceria estratégica, com foco em investimentos e fluxos tecnológicos.
Os números ajudam a explicar a ofensiva. Em 2025, o comércio Brasil–Índia passou de US$ 15 bilhões (US$ 6,9 bi em exportações brasileiras e US$ 8,3 bi em importações). Com a Coreia do Sul, o fluxo foi de US$ 10,8 bilhões (US$ 5,5 bi exportados e US$ 5,3 bi importados).
O agronegócio exportador tende a comemorar qualquer abertura de mercado e redução de barreiras, sobretudo em um parceiro do tamanho da Índia, que combina escala, demanda e crescimento econômico acelerado, segundo o próprio Itamaraty.
A mineração e a indústria de transformação entram no centro da relação por um motivo específico: minerais críticos e cadeias industriais. O governo quer atrair parceria e investimento que empurre processamento e tecnologia para dentro do Brasil, em vez de repetir o roteiro conhecido da commodity indo embora bruta.
A aviação e fornecedores industriais ganham palco nos fóruns empresariais anunciados em Nova Deli e Seul, onde o Planalto lista painéis com minerais estratégicos, IA e, explicitamente, aviação.
Perde quem aposta em proteção eterna e mercado cativo. Se houver avanço real em integração produtiva e parcerias tecnológicas, a indústria que vive de barreira sem inovação vai sentir mais pressão competitiva.
Também perde o Brasil se a negociação virar só foto e protocolo. A disputa por minerais críticos e governança de IA é sobre poder e dinheiro, e a conta chega rápido para quem fica fora dos padrões técnicos e regulatórios que os grandes definirem.
O que o Planalto tenta vender como “parceria”, a oposição tende a enquadrar como “alinhamento”. Mas o ponto prático é outro: Índia e Coreia do Sul são polos industriais e tecnológicos, e o Brasil precisa decidir se quer ser só fornecedor de insumo ou participante da cadeia com engenharia, emprego qualificado e imposto ficando aqui.
A viagem de Lula é uma aposta de economia com geopolítica: entrar na conversa global de minerais e IA para não ser empurrado ao papel de colônia digital, nem de celeiro sem indústria. O sucesso não será medido por discursos, mas por cláusulas, cronogramas e investimentos com entrega.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




