Índice de Tópicos
- SUS vira palco de bate-boca logo na abertura
- Saidinhas de presos abrem confronto sobre segurança pública
- Escala 6×1 entra na disputa pelo voto dos trabalhadores
- Lula relembra pandemia e questiona gestão de hospitais federais
- Flávio promete Ministério da Prosperidade e renegociação de dívidas
- Debate concentra os temas decisivos do segundo turno
O segundo bloco do debate presidencial da Band, neste domingo (18 de outubro de 2026), começou com bate-boca entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e avançou para confrontos sobre saidinhas de presos, combate à violência, inflação e endividamento das famílias. A troca de acusações transformou as propostas para a saúde pública em um embate sobre a pandemia de Covid-19, a experiência dos candidatos com os serviços públicos e o legado dos governos petistas e bolsonaristas.
A discussão também colocou em lados opostos duas estratégias eleitorais para o segundo turno, marcado para 25 de outubro: Lula procurou associar o adversário à condução da pandemia e à falta de experiência com o mundo do trabalho, enquanto Flávio tentou vincular o atual governo à insegurança pública, ao custo de vida e às dificuldades financeiras das famílias.
O debate é promovido pela Band em parceria com a TV Cultura, a TV Gazeta, o jornal Estadão e a Jovem Pan News, com transmissão por diferentes canais e plataformas do grupo Bandeirantes.
SUS vira palco de bate-boca logo na abertura
A pergunta inicial foi sobre como ampliar o atendimento do SUS e financiar a expansão dos serviços. A mediadora lembrou que o sistema enfrenta dificuldades para oferecer consultas com especialistas, exames e cirurgias, além de filas de espera cujo tamanho não é conhecido de maneira consolidada. Também mencionou a estimativa de que o Brasil destina cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) à saúde pública, diante de referências de 6% defendidas por especialistas e entidades do setor.
Flávio Bolsonaro apresentou como principal proposta a criação de um prontuário eletrônico único, capaz de integrar informações das redes municipal, estadual, federal e privada. O candidato afirmou que pretende usar telemedicina, inteligência artificial e tecnologia para acelerar consultas, direcionar pacientes às unidades disponíveis e reduzir filas.
O senador também anunciou Cláudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, como nome escolhido para o Ministério da Saúde. Flávio prometeu levar ao SUS o padrão de atendimento que, segundo ele, caracteriza o hospital privado.
“Eu quero colocar padrão Einstein no SUS”, declarou.
O candidato ainda prometeu atendimento humanizado e disponibilidade de medicamentos, usando como exemplo a dificuldade de encontrar remédios básicos em unidades públicas. Na sequência, atacou os governos do PT, afirmando que o partido teve tempo suficiente para melhorar a saúde e não resolveu os problemas do setor.
Lula reagiu à proposta questionando se a referência ao Einstein significaria privatização do SUS. O presidente também associou o adversário à gestão da pandemia de Covid-19 e afirmou que parte das mortes poderia ter sido evitada se o governo de Jair Bolsonaro tivesse seguido as recomendações científicas.
A discussão saiu rapidamente do tema do financiamento da saúde e entrou em confronto pessoal. Flávio pediu direito de resposta, enquanto Lula ironizou o pedido e respondeu às interrupções com novos ataques.
A mediadora precisou interromper a sequência de falas, pedir que os candidatos respeitassem os tempos e determinar a continuidade da resposta de Lula. O presidente afirmou que o adversário não demonstrava conhecer a realidade da saúde pública e questionou sua experiência com o Sistema Único de Saúde e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
Lula também criticou a escolha de Lottenberg, mencionando passagens anteriores do executivo pela gestão pública e empresarial da saúde. O presidente defendeu a recuperação do SUS e aproveitou a referência ao Dia do Médico para homenagear os profissionais que trabalham no atendimento à população.
A organização do debate negou o pedido de direito de resposta apresentado por Flávio ao fim dessa discussão.
Saidinhas de presos abrem confronto sobre segurança pública
No primeiro confronto direto entre os candidatos, Flávio Bolsonaro escolheu o tema das saídas temporárias de presos. Ele citou o assassinato de Renata Teles, que, segundo seu relato, foi cometido em dezembro de 2023 por um homem beneficiado pela saída temporária de Natal. Também mencionou o caso de um sargento da Polícia Militar de Minas Gerais que teria sido morto por um preso beneficiado pela medida.
Flávio usou os casos para acusar Lula de priorizar os direitos de pessoas condenadas em detrimento das vítimas. O candidato lembrou que o presidente vetou mudanças na legislação que restringiram as saídas temporárias e afirmou que o Congresso Nacional derrubou o veto.
Lula respondeu que as regras não devem punir indiscriminadamente todos os presos que cumprem os requisitos legais para a saída temporária. Segundo o presidente, pessoas com bom comportamento e em processo de recuperação devem poder visitar suas famílias, enquanto condenados por crimes violentos, estupro e violência contra mulheres não devem receber o benefício nas condições que descreveu.
O presidente também acusou Flávio de defender um eventual indulto ao pai, Jair Bolsonaro, e argumentou que a concessão de benefícios penais precisa respeitar as regras gerais do sistema de Justiça, não interesses individuais.
A discussão colocou em evidência duas abordagens eleitorais para a segurança pública. Flávio apostou em casos de violência para defender restrições aos benefícios penais. Lula sustentou que a ressocialização deve continuar fazendo parte da política penitenciária, com limitações para condenados por crimes graves.
Escala 6×1 entra na disputa pelo voto dos trabalhadores
Na réplica, Flávio deslocou o debate para a jornada de trabalho e justificou seu voto favorável ao fim da escala 6×1. Ele afirmou ter ouvido trabalhadores em diferentes regiões do país e disse que pretende governar levando em conta as demandas de quem trabalha.
O candidato relacionou a redução da jornada à segurança pública e ao poder de compra. Segundo ele, trabalhadores que conquistarem mais tempo de descanso continuarão enfrentando o medo de assaltos, a violência no transporte coletivo e a dificuldade para comprar alimentos se o governo atual permanecer no poder.
Flávio também criticou o custo de vida e afirmou que os R$ 600 do Bolsa Família perderam poder de compra. A partir desse argumento, prometeu recuperar a capacidade de consumo das famílias e oferecer condições para que trabalhadores aproveitem o tempo livre sem medo da violência.
Lula respondeu atacando a experiência profissional do adversário. O presidente afirmou que Flávio conhece o transporte público e os trabalhadores apenas de ouvir falar e sustentou que o senador não conhece diretamente a realidade de quem depende do salário para sobreviver.
Em seguida, apresentou números sobre a inflação dos alimentos. Segundo Lula, a alta acumulada teria sido de 56,17% durante os quatro anos do governo Bolsonaro, contra 13% nos quatro anos de seu governo. Esses percentuais foram apresentados pelo presidente durante o debate e precisam ser comparados com a série estatística, o período de referência e o índice utilizado para uma avaliação independente.
Lula também afirmou que o salário mínimo passou de um poder de compra equivalente a 1,8 cesta básica no governo anterior para 2,2 cestas básicas em seu mandato. Prometeu avançar para três cestas e defendeu a política de valorização do salário mínimo acima da inflação.
O presidente associou ainda a pressão sobre os preços às guerras envolvendo Estados Unidos, Irã e Rússia e Ucrânia. Disse que o governo adotou medidas para conter o repasse das oscilações internacionais do petróleo aos preços dos combustíveis no Brasil.
O embate econômico colocou em disputa dois argumentos centrais da campanha: Flávio prometeu aliviar as despesas das famílias e associou o custo de vida à gestão petista; Lula comparou os indicadores dos dois governos e defendeu a recuperação do poder de compra por meio de salários e políticas públicas.
Lula relembra pandemia e questiona gestão de hospitais federais
No segundo confronto direto, Lula voltou à saúde pública e questionou a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia. O presidente afirmou que o então chefe do Executivo deveria ter seguido a ciência, garantido vacinas e evitado falhas no fornecimento de oxigênio hospitalar.
Lula voltou a citar 716 mil mortes por Covid-19 no Brasil e sustentou que uma parcela significativa poderia ter sido evitada. O presidente também criticou a troca de ministros da Saúde durante a crise sanitária.
Flávio fez uma concessão ao reconhecer que a saúde não apresentou os melhores resultados durante o governo Bolsonaro. O senador classificou a pandemia como uma situação inédita e afirmou que o ex-presidente fez o melhor que podia diante das circunstâncias.
Na mesma resposta, Flávio destacou que Bolsonaro comprou vacinas e provocou Lula ao afirmar que o atual presidente também havia sido vacinado. Em seguida, desviou o foco para a violência e declarou que mais de 770 mil pessoas foram assassinadas durante os governos do PT, sem apresentar, naquele momento, a metodologia ou o período estatístico que sustentariam o número.
Na réplica, Lula apresentou dados sobre a ampliação do programa Mais Médicos e afirmou que o Brasil passou de aproximadamente 12 mil médicos vinculados ao programa, segundo sua descrição, para cerca de 28 mil profissionais. A evolução e os números citados pelo presidente exigem a distinção entre profissionais do programa e o total de médicos em atividade no país.
O presidente também direcionou o ataque aos hospitais federais do Rio de Janeiro. Acusou a gestão anterior de deteriorar as unidades e afirmou que sua administração trabalha para recuperar os serviços em parceria com a prefeitura e a iniciativa privada.
Lula mencionou problemas de infraestrutura, unidades de terapia intensiva (UTIs) fechadas e cobranças de estacionamento de funcionários. As afirmações foram feitas pelo presidente no debate e devem ser tratadas como acusações políticas até que sejam confrontadas com documentos administrativos e registros das unidades citadas.
O presidente aproveitou para defender o programa Mais Especialistas, voltado à ampliação do acesso a consultas e procedimentos especializados. Também citou a distribuição gratuita de medicamentos de uso contínuo e a meta de acelerar o diagnóstico e o início do tratamento de câncer.
A saúde pública, portanto, concentrou dois pontos sensíveis da disputa: a responsabilidade política pela condução da pandemia e a capacidade dos governos de manter hospitais, ampliar equipes médicas e reduzir o tempo de espera por atendimento.
Flávio promete Ministério da Prosperidade e renegociação de dívidas
No encerramento do bloco, Flávio Bolsonaro apresentou sua principal proposta econômica para o endividamento das famílias e dos pequenos negócios: a criação do Ministério da Prosperidade.
O candidato prometeu manter o Bolsa Família e ampliar as ações de assistência econômica. Disse que pretende comprar dívidas bancárias por valores inferiores aos saldos originais e estabelecer um período de carência de seis meses para pessoas físicas e de um ano para pessoas jurídicas.
Pela proposta apresentada, os devedores ficariam temporariamente sem pagar as parcelas durante o período de carência. Flávio afirmou que, depois desse intervalo, as prestações seriam reduzidas e financiadas em condições mais favoráveis.
O senador também prometeu uma queda rápida dos juros e disse que pretende usar a Caixa Econômica Federal como instrumento de crédito para empreendedores de periferias e moradores de favelas. Chamou a instituição de “Banco da Prosperidade” e afirmou que ela ajudaria pequenos comerciantes a formalizar empresas, vender pela internet e reorganizar suas finanças.
As promessas, contudo, não vieram acompanhadas, na exposição feita durante o bloco, de estimativas sobre o custo fiscal da operação, os critérios de elegibilidade, a origem dos recursos para a compra das dívidas ou os mecanismos de compensação aos bancos credores. Esses pontos serão decisivos para avaliar a viabilidade da proposta.
Flávio também acusou Lula de apresentar informações falsas sobre sua atuação na área da saúde e prestou solidariedade a Dani Marques, a quem atribuiu ter sido alvo de uma fala machista do presidente.
O senador encerrou sua participação afirmando que pretende usar o dinheiro público para aliviar o endividamento e estimular o consumo. A promessa busca alcançar um eleitorado diretamente afetado pelas parcelas de empréstimos, pelo crédito caro e pela dificuldade de manter as contas domésticas em dia.
Debate concentra os temas decisivos do segundo turno
O segundo bloco reuniu três áreas que podem influenciar o voto na reta final da eleição: saúde pública, segurança e renda. A discussão começou com uma pergunta objetiva sobre financiamento do SUS, mas rapidamente se transformou em uma disputa sobre a experiência dos candidatos, o legado da pandemia e a responsabilidade dos governos pela situação econômica das famílias.
Lula procurou vincular Flávio à administração de Jair Bolsonaro, sobretudo na condução da Covid-19, e apresentou indicadores sobre inflação dos alimentos, salário mínimo e ampliação do atendimento médico. Flávio buscou associar o presidente à insegurança pública, ao custo de vida e ao endividamento, além de oferecer propostas de integração tecnológica do SUS e renegociação de débitos.
A intensidade das interrupções e dos ataques pessoais dificultou a exposição contínua das propostas. Na saúde, por exemplo, a pergunta sobre como elevar o financiamento público e reduzir filas acabou dominada pelo confronto sobre a pandemia e pela discussão em torno do Hospital Albert Einstein.
Na economia, as promessas de redução das dívidas e queda dos juros abriram questões que exigem detalhamento sobre custos, fontes de recursos e execução. Na segurança, o debate sobre saídas temporárias contrapôs a defesa de restrições mais severas à ideia de ressocialização de presos que atendam aos requisitos legais.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, o desempenho dos candidatos será medido também pela capacidade de transformar acusações em propostas verificáveis. O eleitor terá de avaliar não apenas as promessas, mas os resultados anteriores, os números apresentados e os meios pelos quais cada candidato pretende executar o que anunciou.
Acompanhe a cobertura do debate presidencial, as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro e os desdobramentos da eleição no Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




