Início / Brics

Lula defende BRICS como motor da economia verde e inclusão global

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou a abertura do Fórum Empresarial do BRICS, neste sábado (5), no Rio de Janeiro, em palco para reforçar a aposta do Brasil na integração econômica, na transição verde e no protagonismo dos países do Sul Global.

“Cabe aos governos abrir portas e aos empresários fazer negócios. Ao invés de barreiras, promovemos integração. Contra a indiferença, construímos solidariedade”, disse Lula, ao destacar que o BRICS deve ser um fiador de um futuro promissor diante do ressurgimento do protecionismo global.

O encontro antecede a Cúpula de Chefes de Estado do BRICS, marcada para este domingo (6) e segunda-feira (7), também no Rio. Em 2025, o Brasil preside o bloco, que hoje reúne 11 países e representa quase metade da população mundial e 40% do PIB global.

Sul Global em ascensão

Ao lembrar que o BRICS cresceu 4% em 2024 — acima da média mundial — Lula afirmou que o bloco se consolida como polo de economias dinâmicas. O presidente defendeu uma reforma urgente da arquitetura financeira internacional e do regime multilateral de comércio.

Ele também anunciou que participará, em outubro, do encontro da ASEAN, na Malásia, a convite do primeiro-ministro Anwar Ibrahim. A aproximação com o Sudeste Asiático reforça a estratégia brasileira de diversificação e fortalecimento das parcerias do Sul Global.

Minerais estratégicos e industrialização verde

Lula destacou que os países do BRICS concentram 84% das reservas de terras raras, 66% do manganês e 63% do grafite do mundo — minerais fundamentais para a transição energética. Segundo ele, o Brasil está pronto para dar o próximo passo, qualificando sua participação em toda a cadeia de suprimento, da extração ao processamento.

“Temos marcos regulatórios estáveis, mão de obra qualificada e energia limpa para processamento mineral eficiente e sustentável”, garantiu Lula, defendendo que o bloco avance em um modelo de desenvolvimento baseado em agricultura sustentável, indústria verde, bioeconomia e infraestrutura resiliente.

Alckmin destaca protagonismo brasileiro

O vice-presidente Geraldo Alckmin também reforçou a posição estratégica do Brasil, especialmente nas áreas de segurança alimentar, energética e no combate às mudanças climáticas.

“O Brasil é o maior exportador de alimentos do mundo, tem 85% de energia limpa e já inverteu a curva do desmatamento. A meta é desmatamento ilegal zero”, afirmou.

BRICS: números que explicam a relevância

O BRICS, que hoje inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes, Etiópia, Indonésia e Irã, responde por 48% da população mundial, 40% do PIB e 21,6% do comércio global.

Só em 2024, o comércio do Brasil com os países do bloco chegou a US$ 210 bilhões, o equivalente a 35% de todo o intercâmbio brasileiro. Foram US$ 121 bilhões em exportações e US$ 88 bilhões em importações. Já os investimentos vindos dos países do BRICS somaram cerca de US$ 51 bilhões no Brasil.

Rumo à governança inclusiva

Sob o lema “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, a presidência brasileira do BRICS aposta no avanço do diálogo político, na reforma das instituições internacionais e em parcerias concretas para o desenvolvimento social, econômico e ambiental.

Leia também no Blog do Esmael:

Aqui está a íntegra do discurso de Lula:

Discurso do presidente Lula na abertura do Fórum Empresarial do BRICS

Discurso lido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a abertura do Fórum Empresarial do BRICS, no Rio de Janeiro, em 5 de julho de 2025:

Agradeço ao Conselho Empresarial e à Aliança Empresarial de Mulheres pela organização deste Fórum.

Aproximar nossos setores produtivos é um pilar fundamental do BRICS.

Os empreendedores aqui reunidos compõem o eixo dinâmico da economia internacional.

Os onze membros plenos do BRICS já superam 40% do PIB global em paridade de poder de compra.

Em 2024, enquanto o mundo cresceu 3,3%, registramos uma expansão média de 4% nos países do BRICS.

Este ano seguiremos em ritmo superior.

Com o crescimento de países parceiros e convidados, consolidamos o grupo como um polo aglutinador de economias prósperas e dinâmicas.

A presença neste Fórum do Primeiro-Ministro da Malásia, Anwar Bin Ibrahim, presidente de turno da ASEAN, é um reflexo disso.

Temos muito a aprender com a sinergia permanente entre países em desenvolvimento.

Isso nos permitiu enfrentar juntos os efeitos da crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19.

Diante do ressurgimento do protecionismo, cabe às nações emergentes defender o regime multilateral de comércio e reformar a arquitetura financeira internacional.

O BRICS segue como fiador de um futuro promissor.

Durante a presidência brasileira demos um passo importante ao apoiar coletivamente a Convenção da ONU para Cooperação Tributária e a Visão de Reforma do FMI.

O combate às desigualdades fortalece mercados consumidores, impulsiona o comércio e alavanca investimentos.

Possuímos inúmeras complementaridades econômicas.

O intercâmbio comercial do Brasil com o BRICS foi de 210 bilhões de dólares no ano passado, mais que o dobro do fluxo com a União Europeia.

Só em produtos do agronegócio brasileiro, exportamos 71 bilhões de dólares.

Nossos países podem liderar um novo modelo de desenvolvimento pautado em agricultura sustentável, indústria verde, infraestrutura resiliente e bioeconomia.

Reunimos 33% das terras agricultáveis e respondem por 42% da produção agropecuária global.

Crédito rural, fomento à agricultura de baixo carbono e restauração de terras degradadas potencializam nossa capacidade de produzir alimentos para o mundo.

O BRICS foi essencial para a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.

Fortalecer o complexo industrial da saúde amplia o acesso a medicamentos e é fundamental para superar doenças socialmente determinadas que afligem os mais vulneráveis.

A revolução tecnológica permeia todos os setores das nossas economias.

Infraestruturas públicas digitais viabilizam inovações e criam oportunidades para “startups”e pequenas e médias empresas.

A inteligência artificial traz possibilidades que, há poucos anos, sequer imaginávamos.

Na ausência de diretrizes claras coletivamente acordadas, modelos gerados apenas com base na experiência de grandes empresas de tecnologia vão se impor.

Os riscos e efeitos colaterais da inteligência artificial demandam uma governança multilateral.

A descarbonização de nossas economias é um processo irreversível.

A poucos meses da COP 30, reforçamos nossa responsabilidade com a promoção de uma transição ecológica justa e inclusiva.

O Brasil apresentou as suas NDC, que preveem redução entre 59 e 67% das emissões de gases de efeito estufa.

Nossos países já estão entre os maiores investidores em energia renovável do planeta.         

Há imenso potencial para ampliar a produção de biocombustíveis, baterias, placas solares e turbinas eólicas.

Possuímos minerais estratégicos essenciais para a transição energética.

O BRICS concentra 84% das reservas de terras raras, 66% do manganês e 63% do grafite do mundo.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda por minérios críticos deve triplicar até 2040.

Queremos ir além da extração dessas riquezas.

Em parceria com o setor privado, vamos qualificar nossa participação em todas as etapas das cadeias de suprimento.

O Brasil está bem-posicionado para esse salto. Contamos com marcos regulatórios estáveis, mão de obra qualificada e energia limpa para processamento mineral eficiente e sustentável.

Consolidar tantas frentes requer a mobilização de recursos.

Ontem participei da 10ª Reunião Anual de Governadores do Novo Banco de Desenvolvimento.

Desde a criação do Banco, 40 bilhões de dólares foram aprovados em 120 projetos de transportes, saneamento básico e energia limpa.

Ao impulsionar o uso de moedas locais, o NDB também tem contribuído para reduzir custos de transação e facilitar operações financeiras.

Com o objetivo de simplificar o comércio e os investimentos, os bancos centrais do BRICS estão trabalhando para desenvolver meios de pagamento transfronteiriços instantâneos e seguros.

Os bancos nacionais de desenvolvimento também são aliados importantes.  

No Brasil, o BNDES, o nosso banco de desenvolvimento, vem batendo recordes. A partir de 2023, foram destinados mais de 50 bilhões de dólares para projetos de transformação produtiva sustentável.

Queridas amigas e queridos amigos,

Agradeço mais uma vez ao Conselho Empresarial pelo papel central que tem exercido na promoção comercial e na melhoria do ambiente de negócios do BRICS.

Parabenizo a Aliança Empresarial de Mulheres pela fundamental atuação em prol do empreendedorismo feminino e da igualdade de gênero.

Ampliar e qualificar a participação de mulheres no mercado de trabalho traz ganhos de produtividade e acelera o crescimento econômico.

Tenho a convicção de que cabe aos governos abrir portas e aos empresários fazer negócios.

O vínculo entre paz e desenvolvimento é evidente.

Não haverá prosperidade em um mundo conflagrado.

O fim das guerras e dos conflitos que se acumulam é uma das responsabilidades de chefes de Estado e de governo.

É patente que o vácuo de liderança agrava as múltiplas crises enfrentadas por nossas sociedades.

Estou certo de que este Fórum e a Cúpula do BRICS que se inicia amanhã aportarão soluções.

Ao invés de barreiras, promovemos integração.

Contra a indiferença, construímos solidariedade.

Por isso, meus amigos e minhas amigas, boa sorte nesse encontro empresarial.

Muito obrigado.