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Jeannette Jara vence primárias e leva o Partido Comunista ao topo no Chile

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A política chilena amanheceu tensionada. Pela primeira vez desde o retorno da democracia, o Partido Comunista (PC) liderará a corrida presidencial com o apoio oficial do governo e da esquerda chilena. Jeannette Jara, 51 anos, ex-ministra do Trabalho, superou com folga seus adversários nas primárias deste domingo (29), em um pleito que expôs não só as fragilidades do campo progressista, mas também o favoritismo consolidado da direita.

Com 60,2% dos votos, Jara impôs uma derrota histórica ao bloco moderado liderado por Carolina Tohá (28,3%), do Socialismo Democrático, e consolidou sua candidatura ao Palácio de La Moneda. Gonzalo Winter, da Frente Ampla — partido do presidente Gabriel Boric —, ficou em terceiro, com 9%, enquanto Jaime Mulet amargou a última colocação.

Apesar da vitória robusta, o resultado escancarou o esvaziamento eleitoral do campo governista: menos de 10% dos eleitores participaram da escolha, alimentando incertezas sobre a capacidade da esquerda de enfrentar o avanço da direita nas eleições de 16 de novembro.

Bastidores expõem racha no governo e no PC

A consagração de Jara nas urnas não dissipou as divergências internas. Ao contrário, amplificou o desconforto entre líderes socialistas e comunistas. Setores do Partido Comunista, inclusive, cogitam que a candidata suspenda formalmente sua militância, como forma de acalmar os ânimos do campo moderado e ampliar pontes ao centro.

Nos bastidores do PC, o presidente do partido, Lautaro Carmona, foi um dos principais entraves à candidatura de Jara. Contrariado com sua ascensão, Carmona impôs uma retórica mais ideológica, reacendendo temas como a defesa do regime cubano e uma nova Constituinte — pontos que Jara e seu núcleo tentaram neutralizar durante toda a campanha.

Mesmo assim, o racha ficou exposto. O ex-prefeito Daniel Jadue, derrotado nas primárias de 2021 e ainda figura influente no partido, preferiu apoiar Jara, enquanto Carmona e aliados agiram para esvaziá-la politicamente.

Anticomunismo e direita fortalecida no horizonte

Com o PC na cabeça de chapa, cresce o temor dentro do próprio governo de que o anticomunismo ganhe tração e sirva de combustível para a direita, que já lidera as pesquisas. Evelyn Matthei, da tradicional direita chilena, aparece com 19% das intenções de voto, seguida por José Antonio Kast, da extrema direita, com 17,7%, e Johannes Kaiser, representante do radicalismo ultraconservador.

O resultado das primárias reforça o diagnóstico de que a eleição presidencial será marcada pela polarização. A direita se beneficia do desgaste do governo Boric, abalado por crises na segurança pública e no crescimento econômico.

Do lado da esquerda, a vitória de Jara obriga uma rearticulação interna e a busca por apoios além do núcleo duro do governo. As próximas semanas serão decisivas para que a candidata comunista transforme sua vitória num projeto competitivo capaz de enfrentar o favoritismo conservador.

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Cenário eleitoral e incertezas à frente

O Chile vai às urnas em novembro. O primeiro turno das eleições presidenciais está marcado para o dia 16 de novembro. Caso nenhum candidato consiga a maioria absoluta, um segundo turno será realizado em 14 de dezembro, quando os dois mais votados disputarão diretamente o comando do país.

Além da presidência, os chilenos também escolherão novos representantes para o Congresso. Estarão em jogo todas as 155 cadeiras da Câmara dos Deputados e 23 das 50 cadeiras do Senado. A fragmentação do parlamento e o avanço da direita nas regiões tornam o desafio de Jara ainda maior.

No discurso da vitória, a candidata evitou radicalismos e reforçou o tom moderado. Defendeu a união das forças progressistas, prometeu combater a violência e melhorar as políticas sociais, com foco na saúde pública, moradia e segurança.

Mas, nos bastidores, persistem as dúvidas sobre a capacidade do PC de conquistar o centro político chileno e evitar o isolamento ideológico. Com a direita forte e o fantasma do anticomunismo à espreita, Jara terá que equilibrar o discurso de transformação social com pragmatismo eleitoral.

A campanha está oficialmente em campo. O Chile, mais uma vez, caminha para uma eleição marcada por incertezas, rupturas e o risco real de um retorno conservador ao poder.