Islamabad segura a tensão, mas Ormuz ainda manda no bolso

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não sentou à mesa em Islamabad neste sábado (11). A rodada técnica entre Washington e Teerã foi conduzida pelo vice-presidente JD Vance e por autoridades iranianas, enquanto Trump tratou de minimizar as conversas à distância. É dessa negociação, porém, que depende o preço do petróleo, o custo do diesel, a pressão sobre a inflação e o humor do mercado.

A reunião no Paquistão é a mais importante entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979. Segundo a Reuters, Vance, o enviado Steve Witkoff e Jared Kushner se encontraram por duas horas com o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, e com o chanceler Abbas Araqchi. As conversas devem continuar no domingo (12).

O ponto que trava tudo continua sendo o Estreito de Ormuz. O canal concentra cerca de 20% dos embarques globais de petróleo e gás natural liquefeito por via marítima. O governo iraniano quer discutir controle da passagem, reparações de guerra e cessar-fogo mais amplo na região. Os Estados Unidos querem navegação liberada e freio ao programa nuclear iraniano.

Trump tentou vender alívio antes da hora. Disse que os militares americanos começaram a “limpar” Ormuz e voltou a falar em reabrir a rota. O problema é que o próprio noticiário da Reuters mostra que o estreito ainda é tema de “séria divergência” entre as delegações. Houve um pequeno sinal de distensão, com a passagem de três superpetroleiros neste sábado, mas o gargalo segue de pé.

O papa Leão XIV entrou no debate com um recado direto. Em vigília no Vaticano, pediu o fim da “loucura da guerra” e cobrou que os líderes mundiais se sentem à mesa da negociação, não da rearmamentação, em linguagem simples, da escalada militar. O apelo veio no mesmo dia em que EUA e Irã abriram a conversa em Islamabad.

O mercado já entendeu onde está o centro da crise. O Brent fechou a sexta-feira (10) a US$ 95,20 por barril, com queda no dia e na semana, mas investidores seguem olhando menos para as bravatas de Trump e mais para o que sair da mesa no Paquistão. A razão é simples: se Ormuz continuar travado, o petróleo volta a subir.

No Brasil, a conta chega pelo diesel. O país importa cerca de 25% do combustível que consome e depende fortemente do transporte por rodovias. Traduzindo: qualquer solavanco em Ormuz bate no frete, encarece mercadoria e reaparece na inflação. Foi esse movimento que já ajudou a empurrar para cima os custos de transporte e da gasolina em março, segundo os dados divulgados na sexta-feira.

Por isso Islamabad virou a pauta que organiza o resto. Não se trata só de diplomacia entre inimigos históricos. Trata-se do canal por onde passam petróleo, diesel, inflação e nervosismo de mercado, com efeito direto no bolso do brasileiro.

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