O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou neste sábado (28) no segundo mês da guerra contra o Irã espremido entre a escalada militar e a negociação, enquanto a entrada formal dos houthis no conflito amplia o risco regional sobre energia e navegação. Para o Brasil, isso já deixou de ser só noticiário externo. Virou pressão sobre diesel, frete e inflação.
Um mês depois do início da ofensiva, em 28 de fevereiro, a Casa Branca continua mandando sinais trocados. Trump fala em contato diplomático, mas mantém a ameaça de novos ataques se o Estreito de Ormuz não voltar plenamente à circulação. Esse impasse é o que segura o barril em patamar alto e mantém o mercado operando sob nervosismo.
A novidade deste sábado foi a reivindicação, pelos houthis do Iêmen, do primeiro ataque contra Israel desde o começo da guerra. Isso abre uma frente nova num ponto sensível do mapa. Além de Ormuz, o mercado passa a olhar com mais medo para Bab el-Mandeb e para o Mar Vermelho, rotas que já sofreram interrupções anteriores e podem encarecer seguro, frete marítimo e prazo de entrega.
O tamanho do problema ajuda a explicar o susto. Segundo a Energy Information Administration dos EUA, Ormuz escoou em 2024 cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo. Na sexta-feira (27), o Brent fechou a US$ 112,57 e o WTI a US$ 99,64. Em outro levantamento publicado no mesmo dia, a Reuters mostrou que o Brent já subiu mais de 50% desde o início da guerra e chegou a superar US$ 119 por barril.
No Brasil, o efeito já apareceu na bomba. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) registrou que o preço médio de revenda do diesel B S10 saiu de R$ 6,09 por litro na semana encerrada em 28 de fevereiro para R$ 7,35 na semana de 21 de março, uma alta de 20,7% em três semanas. Só de uma semana para outra, o avanço foi de 6,68%.
Não por acaso, o governo brasileiro começou a agir antes de a guerra completar um mês. O Ministério da Fazenda apresentou em 24 de março um plano de subsídio ao diesel importado, dividido entre União e estados. Dois dias depois, a Petrobras decidiu reforçar a oferta de abril com mais 70 milhões de litros de diesel S10 e 95 milhões de litros de gasolina por contratos diretos, sem leilão.
O Banco Central do Brasil também já acendeu a luz amarela. No Relatório de Política Monetária de março, a autoridade monetária afirmou que os riscos para a inflação se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio e citou, de forma explícita, os efeitos sobre cadeias globais de suprimento e sobre preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação brasileira.
É aí que a pauta deixa de ser geopolítica abstrata e vira economia real. Quando o barril sobe e o corredor de energia do Golfo entra em zona de ameaça, o primeiro impacto no Brasil bate no tanque do caminhão. Depois, escorre para o frete, aperta a distribuição e complica a vida do Banco Central justamente quando o país tentava respirar com a queda da Selic.
Trump ainda pode achar uma saída diplomática. Mas, enquanto a guerra oscila entre ultimato e conversa, quem já começou a pagar a conta é o bolso do brasileiro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




