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Google enfrenta a fúria da imprensa europeia por despriorizar notícias jornalísticas

A decisão do Google de ocultar conteúdos jornalísticos nos resultados de busca em países europeus acendeu um alerta vermelho para o futuro da informação e da democracia no continente. Sob o pretexto de medir a contribuição da imprensa para sua “atratividade de marca”, a gigante da tecnologia está testando um modelo que restringe o acesso de cerca de 2,6 milhões de cidadãos a notícias, segundo associações de imprensa.

Essa manobra é vista como um ataque direto à sustentabilidade financeira do jornalismo profissional, base fundamental para a democracia. As principais entidades representativas do setor, como a Federação Europeia de Jornalistas (EFJ) e a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), classificam o experimento como um “ato de má-fé”.

O jornalismo é o principal pilar da transparência e do debate público. Ao limitar o alcance das notícias em sua plataforma, o Google não apenas compromete o financiamento das redações, mas também ameaça a qualidade do diálogo democrático. Na prática, a decisão concentra ainda mais poder informacional nas mãos da big tech, tornando-a um gatekeeper [agente que faz o filtro, qual seja, que faz a censura prévia] da informação.

O teste ocorre em um momento crítico de negociações entre a União Europeia e plataformas digitais sobre a remuneração justa pelo uso de conteúdos jornalísticos. Na França, por exemplo, a Autoridade de Concorrência determinou a suspensão temporária do teste após pressão de editores, mas o restante do continente segue vulnerável.

Essa disputa ecoa no Brasil, onde veículos de comunicação também enfrentam problemas semelhantes. A despriorização de conteúdos jornalísticos por algoritmos já foi denunciada como uma prática que nivela a internet por baixo, promovendo bolhas de opinião e prejudicando a circulação de informações confiáveis.

O Blog do Esmael alerta que a situação europeia deve servir como exemplo para o Brasil. Com o avanço da regulação das plataformas digitais e projetos de lei como o PL das Fake News e o PL que regulamenta a inteligência artificial, a transparência e a responsabilização das big techs devem ser prioridade.

Em dezembro de 2024, por exemplo, o Blog do Esmael registrou que existem algoritmos que despriorizam conteúdos jornalísticos e incentivam ou indicam conteúdos que promovem ódio e discordância, já que esses geram maior engajamento

Além disso, observou que a despriorização do conteúdo jornalístico nivela a internet por baixo, criando um ambiente hostil para toda a sociedade. Alertou ainda que esse cenário cerceia o debate realmente relevante, promovendo a criação de bolhas de opinião.

Também deixou evidente que há uma burla comercial, já que os algoritmos indicam produtos e serviços de acordo com os interesses das própria plataformas e empresas de aplicação de internet.

Nesse sentido, a ação do Google levanta questões sobre soberania digital e a responsabilidade de plataformas globais na preservação do direito à informação. À medida que a Europa endurece sua regulamentação, como a Lei de Serviços Digitais, espera-se que mais países adotem uma postura semelhante.

No entanto, a batalha judicial não é suficiente. É necessário um movimento global para proteger o jornalismo e garantir que o acesso à informação seja tratado como um direito fundamental, não como um privilégio.

No Brasil, a união entre legisladores, imprensa e sociedade é essencial para evitar que práticas semelhantes comprometam ainda mais o já fragilizado ecossistema de mídia independente.

Enquanto governos e associações de imprensa buscam frear abusos de poder das big techs, a sociedade deve reconhecer o valor do jornalismo. A luta na Europa não é apenas sobre algoritmos, mas sobre o futuro da informação e das democracias. O que está em jogo é o direito de cada cidadão a acessar notícias confiáveis e de qualidade – algo que jamais pode ser negociado.

Leia o texto completo abaixo:

Publicadores de imprensa e jornalistas europeus: a supressão unilateral de conteúdo jornalístico pelo Google é um sinal de alerta para as democracias europeias e ameaça a sustentabilidade da informação “Made in Europe”.

Os publicadores de imprensa e jornalistas europeus estão profundamente preocupados com o teste em andamento do Google, cujo objetivo declarado é remover o conteúdo da imprensa de seus serviços em vários países europeus por um período indeterminado, afetando cerca de 2,6 milhões de cidadãos europeus.

Este experimento, supostamente destinado a medir a contribuição da imprensa para a atratividade da marca do Google, representa uma séria ameaça à sustentabilidade financeira de uma imprensa livre na Europa, ao jornalismo europeu e à saúde das democracias no continente.

Como guardião digital, sob a Lei de Mercados Digitais da União Europeia (DMA), o Google exerce influência significativa através de seu quase monopólio nas buscas online, sendo o principal ponto de acesso ao conteúdo jornalístico para muitos cidadãos europeus. Qualquer ação que reduza o alcance da imprensa aos leitores compromete a capacidade dos publicadores de financiar suas equipes editoriais. Além disso, restringir o acesso dos cidadãos à informação afeta diretamente a qualidade do debate democrático em toda a Europa.

Com base em nossa ampla experiência em negociações com o Google, acreditamos que este “teste” está sendo conduzido de má-fé. O Google não foi transparente nem cooperativo, recusando-se a compartilhar detalhes sobre o teste ou garantir acesso aos seus resultados. Ao definir seus próprios parâmetros de pesquisa e avaliar seu próprio desempenho, o Google corre o risco de manipular os resultados para desvalorizar o papel econômico da imprensa e sua real contribuição para o sucesso da empresa.

No contexto das negociações em andamento na Europa para garantir uma remuneração justa para o conteúdo da imprensa sob a lei de direitos autorais da UE, este experimento parece constituir um claro ato de intimidação. A Autoridade de Concorrência da França previu tal comportamento e identificou o risco de retaliação por parte do Google. Para salvaguardar um processo de negociação justo, proibiu o Google de remover conteúdo de publicadores. Essa intervenção permitiu que os editores de revistas franceses, por meio de sua associação nacional, garantissem a suspensão temporária do teste na França.

Publicadores e jornalistas de toda a Europa apoiam plenamente a iniciativa do SEPM. Acompanharemos de perto os procedimentos judiciais na França, com a esperança de que o resultado afirme a soberania da Europa sobre seu ecossistema de informações.

Reiteramos também nosso apelo ao Google para que encerre imediatamente este “teste” em todos os países afetados.

Em um momento de ampla interferência e manipulação da informação e da opinião pública, uma empresa dominante como o Google deve assumir total responsabilidade por suas ações e parar de obstruir o direito dos cidadãos de acessar informações jornalísticas.

Signatários:

  • European Magazine Media Association (EMMA)
  • European Newspaper Publishers’ Association (ENPA)
  • European Federation of Journalists (EFJ)
  • News Media Europe (NME)
  • Repórteres Sem Fronteiras (RSF)

Leia também no Blog do Esmael: Ameaça à liberdade de imprensa: Deputado Arthur Lira processa ICL Notícias e Agência Pública com pedido de censura prévia; Requião: Se quero comprar peixe vou na peixaria; se quero comprar pesquisa vou ao Ibope; MP de Bolsonaro que proíbe remoção de conteúdo vai para a gaveta-geral de Augusto Aras

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