O contrato bilionário entre o Google Cloud e o governo de Ratinho Júnior (PSD) é o desdobramento de uma novela iniciada em julho, quando o Blog do Esmael revelou a pressão sobre a Celepar, companhia de tecnologia do Estado.
Naquele momento, servidores denunciaram tentativas de esvaziar a estatal e transferir soluções digitais para gigantes privadas.
O detalhe político é que o start do acordo ocorreu ainda na gestão de Guto Silva (PSD) como secretário do Planejamento.
Hoje, já à frente da Secretaria das Cidades e cotado como candidato do governador ao Palácio Iguaçu em 2026, Silva vê a parceria com a big tech se transformar em alvo preferencial da oposição.
Alex Canziani, secretário de Inovação e Inteligência Artificial, formalizou a parceria em maio prevendo uso de biometria facial, monitoramento criminal e algoritmos de avaliação de redações nas escolas.
Mas a ligação familiar com a deputada federal Luísa Canziani (PSD-PR), presidente da Comissão de Inteligência Artificial na Câmara, adicionou o ingrediente de suspeita de conflito de interesses.
A narrativa de que Ratinho mistura política pública com negócios privados ganhou corpo na Assembleia Legislativa do Paraná e atingiu em cheio o projeto sucessório com os questionamentos no Senado.
É nesse ponto que a aliança tácita entre o senador Sergio Moro (União Progressista-PR) e a bancada de oposição na ALEP causa ruído no mundo político.
Moro, que sonha governar o Paraná, aprovou requerimento no Senado para investigar a parceria.
Já a oposição, por meio do deputado Arilson Chiorato (PT), acumula documentos internos e promete questionar o Executivo.
Para adversários de Ratinho, o elo inusitado mostra que há espaço para convergência quando o assunto é barrar a privatização da Celepar e os dados dos paranaenses.
A tentativa de vender a estatal, superavitária e estratégica, seguiu com audiência pública em setembro.
O governo Ratinho acena com “golden share” e conselho de governança digital, mas o Ministério Público já detectou indícios de irregularidades, sobretudo no respeito à Lei Geral de Proteção de Dados.
Nos bastidores, líderes lembram que a Celepar faturou R$ 760 milhões nos últimos dois anos, com lucro líquido de R$ 130 milhões, e questionam por que abrir mão de um ativo tão lucrativo e sensível.
No entanto, a equação eleitoral se complica.
Se o contrato com o Google nasceu sob a batuta de Guto Silva no Planejamento, é ele quem agora paga o preço político de ter deixado a digital em um negócio considerado arriscado.
O amigo dileto de Ratinho, que se movimenta como nome natural à sucessão em 2026, pode ter sua candidatura fragilizada pela aliança, ainda que circunstancial, entre Moro e PT.
A disputa pelo controle do Paraná ganhou um novo campo de batalha: os bastidores da tecnologia e os contratos públicos.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




