Folha tenta culpar trabalhador para barrar fim do 6×1

A Folha de S.Paulo tenta empurrar a tese de que o Brasil “trabalha pouco” para deslegitimar o fim do 6×1 e naturalizar mais precarização no mercado de trabalho. A manobra é antiga: transformar direito social em “custo”, e transformar exaustão em “virtude”, sempre com o verniz da “imparcialidade” que, na prática, favorece o capital.

A reportagem do jornalão usa um banco de dados global de horas trabalhadas para afirmar que a média brasileira (40,1 horas semanais em 2022 e 2023) ficou abaixo da média mundial (42,7) e abaixo do “esperado” quando se controla produtividade e demografia. O problema é o salto editorial: do dado estatístico para o julgamento moral, como se trabalhar mais horas fosse sinônimo de país mais próspero e de trabalhador mais digno.

A base internacional citada existe e é relevante, construída a partir de pesquisas domiciliares em 160 países. Mas ela mede horas remuneradas, não mede o que pesa no corpo real do Brasil: deslocamento diário interminável, dupla jornada doméstica, “bicos” invisíveis, informalidade que engole direitos e a intensidade do trabalho em serviços, varejo e logística. O próprio debate do 6×1 explodiu porque a escala virou método de gestão da fadiga.

Quando a Folha sugere que o brasileiro “desceu a serra cedo”, está carimbando a vida das pessoas com um estereótipo cultural, enquanto blindam as escolhas do topo. Quem define produtividade não é o trabalhador no balcão, é investimento, tecnologia, gestão, crédito, infraestrutura e competição. Sem isso, “trabalhar mais” vira só trabalhar mais, com salário comprimido e saúde corroída. O Blog do Esmael já enfrentou esse tema na semana passada.

Barões da velha mídia e banqueiros são contra os pobres
Barões da velha mídia e banqueiros são contra os trabalhadores

O argumento do PIB também é usado como chantagem. Daniel Duque, do FGV Ibre, já estimou perdas no curto prazo em cenários de redução de jornada, mas o próprio exercício contábil deixa claro que o resultado depende do desenho da transição, de reorganização de turnos e de produtividade por hora, não de fatalismo. O que a Folha faz é tratar um recorte estático como sentença definitiva, o mesmo roteiro que a velha mídia vendeu na reforma trabalhista.

A reforma de Michel Temer (MDB-SP), sancionada em 2017, flexibilizou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e abriu portas para formas mais frágeis de contratação e negociação. Foi vendida como modernização inevitável, depois do impeachment que retirou a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff (PT). O resultado social dessa “modernização” é conhecido no cotidiano: rotatividade alta, renda instável, insegurança e a transferência do risco para quem vive de salário.

A Folha posa de árbitra neutra, mas joga no mesmo campo da financeirização da vida. O PagBank, braço financeiro associado ao ecossistema UOL, integra um arranjo empresarial ligado à família Frias, controladora da Folha de S.Paulo e do próprio UOL. Esse vínculo não é detalhe de rodapé: ajuda a entender por que parte do discurso editorial trata direito trabalhista como “entrave” e naturaliza a jornada exaustiva como se fosse regra da economia, e não opção política.

O Grupo Folha, fundado por Octavio Frias de Oliveira e hoje comandado por Luiz Frias, é um dos maiores conglomerados de mídia do país. Além do jornal Folha de S.Paulo, reúne UOL, Datafolha, Folhapress e operações de logística, como a Transfolha, e de impressão, como a Plural, compondo um poder de agenda com interesses que cruzam informação, mercado e negócios.

O contraponto é direto: reduzir jornada não é “mimar” ninguém, é civilização. A Fundacentro, órgão público de referência em saúde do trabalhador, já advertiu que o fim do 6×1 e a redução de jornada não podem virar intensificação de trabalho, e contextualizou o tema no avanço do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e na PEC 8/2025, apresentada pela deputada federal por São Paulo, Érica Hilton (PSOL-SP). Ou seja, o Estado reconhece que o debate é de saúde pública, organização produtiva e dignidade, não de moralismo.

Por isso Gleisi Hoffmann, ministra da Secretaria de Relações Institucionais, cobrou “acorda, Folha” ao criticar o alarmismo em torno do 6×1 e da jornada semanal. A Folha cobra “evidências” para reduzir jornada, mas raramente cobra evidências de quem defende escala desumana: qual o custo do adoecimento, do afastamento, do acidente no trajeto, da evasão escolar do jovem que trabalha e não consegue estudar, da mãe que não consegue tempo para a casa porque a escala sequestra a semana?

Ministra Gleisi Hoffmann e deputada Erika Hilton (PSOL/SP). Foto: Brito Júnior/SRI-PR
Ministra Gleisi Hoffmann e deputada Erika Hilton (PSOL/SP). Foto: Brito Júnior/SRI-PR

O capital costuma repetir quatro frases prontas contra o trabalho, e todas caem no teste da realidade.

A primeira é “vai quebrar empresas”. Se quebrasse, países com jornadas menores seriam ruína, e não é isso que os dados internacionais mostram. O que quebra pequena empresa no Brasil é juros, aluguel, monopólio, cadeia predatória, imposto mal desenhado, energia cara e falta de crédito decente, não a existência de folga.

A segunda é “produtividade é baixa”. Sim, e isso é problema estrutural. Usar produtividade baixa como álibi para manter escala ruim é premiar a má gestão e punir o elo mais fraco.

A terceira é “o brasileiro trabalha pouco”. A Folha tenta transformar média estatística em culpa individual, ignorando subocupação, informalidade e o tempo morto do transporte. A vida real do trabalhador não cabe numa coluna de Excel.

A quarta é “direito vira privilégio”. Direito não é privilégio, privilégio é capturar o debate público para manter margem às custas de exaustão, e ainda chamar isso de “técnico”.

No balanço, a Folha não está preocupada com virtude do trabalho, está preocupada com disciplina do trabalhador. Quando o país discute enterrar o 6×1, discute também tempo de vida, participação política, estudo, cuidado, cultura e saúde. E é exatamente isso que assusta a engrenagem que ganha com gente cansada.

Dito isso, o Brasil não precisa de “argentinização” de direitos, nem de jornalão vendendo suor como patriotismo. Precisa de modernização de verdade: tecnologia, crédito produtivo, competição, negociação coletiva forte e uma regra civilizada de jornada, porque democracia também se mede no relógio de quem trabalha.

Continue acompanhando os bastidores da política, do poder e do trabalho pelo Blog do Esmael

Vida Além do Trabalho (VAT). Foto: Davi Pinheiro / Divulgação
Vida Além do Trabalho (VAT). Foto: Davi Pinheiro / Divulgação

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