Faltam quatro dias para 4 de julho, data em que o calendário eleitoral fecha a torneira das transferências voluntárias do Estado para os municípios. No Paraná, o prazo virou relógio político para prefeitos, deputados e aliados do Palácio Iguaçu, enquanto Ratinho Junior (PSD) está em viagem de férias aos Estados Unidos e Sandro Alex (PSD) tenta sustentar a candidatura oficial ao governo.
A regra é objetiva. A Resolução nº 23.760/2026, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proíbe a partir de 4 de julho a transferência voluntária de recursos da União para estados e municípios e dos estados para municípios, sob pena de nulidade absoluta. A exceção vale para obrigação formal preexistente, obra ou serviço em andamento com cronograma prefixado, emergência e calamidade pública.
A consequência política é menos burocrática. Convênio, em ano eleitoral, não é apenas papel assinado entre governo e prefeitura. É sinal de força, afago, enquadramento e escolha. Quem recebe leva obra, máquina e fotografia. Quem fica de fora ganha motivo para procurar outro palanque.
As eleições de 2026 estão marcadas para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Até lá, o Palácio Iguaçu terá menos margem formal para usar repasses voluntários como cola política da base.
É nesse ponto que o Centro Cívico deixou de falar apenas em gestão e passou a fazer conta de sobrevivência. Nos bastidores, circula a avaliação de que prefeitos e deputados hoje acomodados na aba do governo podem anunciar apoio a candidaturas adversárias depois de 4 de julho. O rumor não é fato consumado. Mas, em política, rumor com prazo, orçamento e eleição proporcional costuma virar instrumento de pressão.
Palacianos tentam reduzir o incêndio. A versão governista é que os convênios não assinados até agora não ficaram pelo caminho por descuido, férias ou paralisia. Teriam sido escolhas políticas. Em português claro: o governo já teria decidido quem deseja ajudar e quem não faz questão de ver reeleito na Câmara dos Deputados ou na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).
A explicação acalma uma parte da base e irrita outra. Se a mão que apedreja é a mesma que afaga, o aliado sem convênio já sabe em qual lista foi colocado. E o deputado que precisa de prefeito, obra e presença territorial para sobreviver em 4 de outubro não costuma esperar serenamente o último capítulo.
Ratinho Junior está fora do Paraná em momento sensível. O Blog do Esmael registrou semana passada que Darci Piana assumiu interinamente o governo durante viagem internacional do titular aos Estados Unidos, informação tratada no Centro Cívico como politicamente incômoda para a costura de Sandro Alex.
A ausência do governador não derruba nenhuma regra. O problema é a imagem. Enquanto prefeitos cobram assinatura, deputados fazem cálculo de palanque e partidos medem custo de permanência, o principal fiador da candidatura oficial aparece distante da praça onde a sucessão será decidida.
Sandro Alex foi escolhido por Ratinho Junior para representar a continuidade do grupo no Palácio Iguaçu. Ex-secretário de Infraestrutura e Logística, o deputado federal tenta transformar obras, concessões e presença no governo em credenciais eleitorais. Ele se define como integrante do time de Ratinho e admite que a indicação para disputar o governo foi surpresa.
O argumento oficial é conhecido: o governo teria estrutura, prefeitos, obras e tempo de televisão suficientes para levar Sandro Alex ao segundo turno. A pergunta incômoda é outra. Quantos aliados continuam no mesmo lugar quando o prazo dos convênios expira e a caneta perde parte do efeito?
A eleição paranaense não tem cara de passeio. Rafael Greca (MDB), Sergio Moro (PL), Requião Filho (PDT) e outras articulações regionais disputam pedaços diferentes da base governista, do centro político, da direita e da oposição. A candidatura oficial precisa provar que é herança com comando, não apenas carimbo de continuidade.
A comparação com a Copa ajuda a entender o clima. Nesta segunda-feira (29/6), Paraguai eliminou a Alemanha nos pênaltis, e Marrocos derrubou a Holanda também nas penalidades. Favorito que entra em mata-mata achando que a camisa decide o jogo costuma descobrir tarde demais que cobrança perdida muda destino.
No Paraná, o pênalti político tem data marcada. Até 4 de julho, o Palácio Iguaçu ainda pode assinar, priorizar, compensar e enquadrar. Depois disso, a eleição entra em outra fase. Menos convênio. Mais cobrança. Menos promessa administrativa. Mais preço político.
A tese governista diz que não há risco para Sandro Alex porque a seleção dos aliados já foi feita. A leitura adversária sustenta o contrário: se o governo escolheu quem ajuda, também produziu uma fila de ressentidos.
O relógio corre. E, quando o apito eleitoral soar, não bastará dizer que estava tudo sob controle na prancheta do Centro Cívico.
Continue acompanhando os bastidores da sucessão paranaense pelo Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




