A China elevou o tom contra Taiwan ao prometer apoiar “forças patrióticas pró-reunificação” na ilha e “reprimir separatistas”, numa sinalização de linha dura feita por Wang Huning, dirigente do alto comando do Partido Comunista Chinês e chefe do CPPCC, durante a Conferência de Trabalho sobre Taiwan, em Pequim.
Pequim trata Taiwan como “parte do seu território” e diz que a questão é interna, apesar da rejeição do governo taiwanês. Na prática, o discurso combina pressão política e demonstração de força no Estreito, com recados para a oposição de Taipei, para aliados de Taiwan e, principalmente, para Washington.
O roteiro foi repetido em linguagem oficial: apoiar aliados “pró-unificação”, combater a “independência de Taiwan”, resistir a “interferência externa” e vender a ideia de “paz e estabilidade” sob a tutela de Pequim. A reação de Taiwan foi de desconfiança: autoridades disseram que Wang apenas retomou os pontos tradicionais do governo chinês e reafirmaram que o futuro da ilha cabe à sua população decidir.
O detalhe que muda o clima é a escalada verbal do Ministério da Defesa chinês. O porta-voz Jiang Bin afirmou que, se as forças “pró-independência” ousarem “provocar um conflito”, seriam “aniquiladas”. É o tipo de frase que serve para intimidar, testar limites e alimentar a máquina de nacionalismo interno.
Pequim também insiste no modelo “um país, dois sistemas”, o mesmo que foi aplicado a Hong Kong. Em Taiwan, essa proposta é tóxica: nenhum grande partido abraça a fórmula, e o exemplo hongkonguês virou alerta, não vitrine.
Não por acaso, o presidente taiwanês Lai Ching-te usou a sentença de 20 anos de prisão do magnata e ativista Jimmy Lai, em Hong Kong, para apontar o que chama de perseguição política e erosão de liberdades sob a lei de segurança nacional. A condenação gerou críticas internacionais e recolocou a liberdade de imprensa no centro do debate sobre o “modelo” prometido por Pequim.
O pano de fundo é a disputa China-EUA. Em telefonema de 4 de fevereiro de 2026, Xi Jinping disse ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que Taiwan é o tema mais sensível da relação bilateral e cobrou “prudência” em vendas de armas à ilha. O recado foi dado no momento em que Washington tenta reequilibrar a conversa com Pequim sem abandonar o apoio militar a Taipei.
Na quadra interna de Taiwan, Pequim segue boicotando diálogo com Lai, rotulado de “separatista”. Ao mesmo tempo, mantém canais com o Kuomintang, principal partido de oposição, que enviou delegação a Pequim e disse ter tratado de temas como turismo e inteligência artificial, sem pauta política. Para o governo taiwanês, esse tipo de aproximação sempre carrega cálculo de influência.
O que está em jogo, no curto prazo, é a normalização do risco: mais aviões e navios chineses no entorno da ilha, mais pressão psicológica, mais disputa narrativa. Taiwan alerta que a sociedade não pode se acostumar com o barulho das manobras, porque o objetivo é justamente transformar coerção em rotina.
Pequim mistura promessa de “estabilidade” com ameaça explícita para empurrar Taiwan e os EUA para a defensiva. Democracia se defende também com linguagem clara: chantagem militar não é “assunto interno”, é teste de ordem internacional e de compromisso com direitos e liberdade.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




