China vende 2,4 trilhões de cigarros por ano
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China vende 2,4 trilhões de cigarros e preserva monopólio estatal

A China vende cerca de 2,4 trilhões de cigarros por ano, quase metade do consumo mundial, em um mercado controlado por uma estatal que regula, fabrica e abastece o vício que o próprio governo diz combater. O dado divulgado nesta quarta-feira (27) recoloca Pequim diante de um conflito direto entre saúde pública, arrecadação estatal e poder econômico do tabaco.

Enquanto as vendas de cigarros recuam na maior parte do planeta, a China anda na direção contrária. O consumo chinês cresceu 39% entre 2003 e 2023. No mesmo período, o restante do mundo registrou queda de 26%, segundo levantamento citado pela imprensa internacional a partir de dados de uma organização não governamental criada por ex-integrantes do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças.

O número é brutal porque não fala apenas de hábito individual. Ele revela uma engrenagem de Estado. A Corporação Nacional de Tabaco da China, conhecida como Tabaco da China, opera sob o guarda-chuva da Administração Estatal do Monopólio do Tabaco, órgão que regula o setor e, ao mesmo tempo, integra a estrutura que domina a produção e a venda de cigarros no país.

Esse arranjo cria a contradição central da pauta: o governo chinês tem metas de saúde pública, mas arrecada fortunas com o produto que adoece sua população. Em 2025, a indústria do tabaco registrou 1,657 trilhão de yuans em impostos e lucros comerciais, alta de 3,5% sobre o ano anterior, segundo informação divulgada pela agência estatal Xinhua a partir de dados da autoridade chinesa do tabaco. O valor equivale a algo próximo de US$ 240 bilhões pela conversão cambial corrente.

A cifra ajuda a entender por que o cigarro resiste na política chinesa. Relatórios e análises sobre o setor apontam que a contribuição do tabaco representa fatia relevante da receita do governo central, em torno de 7% em estimativas citadas por analistas e veículos internacionais. O dinheiro entra no caixa público, mas a conta sanitária aparece em hospitais, famílias e mortes evitáveis.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a China é o maior produtor e consumidor de tabaco do planeta, com mais de 300 milhões de fumantes. O país concentra quase um terço dos fumantes do mundo, e mais da metade dos homens adultos chineses fuma atualmente. A OMS também estima que mais de 700 milhões de não fumantes no país, incluindo cerca de 180 milhões de crianças, ficam expostos ao fumo passivo ao menos uma vez por semana.

Dados publicados pelo China CDC Semanalmente apontam que, em 2024, 23,2% dos chineses com 15 anos ou mais fumavam, e 20,3% fumavam diariamente. Entre os fumantes atuais, o consumo médio era de 15,8 cigarros por dia. O dado mostra que a queda entre jovens não basta para virar a curva quando adultos e idosos mantêm consumo elevado.

Há ainda um componente econômico direto: o cigarro segue relativamente barato na China. A política de preço reduz o efeito dissuasório que impostos mais pesados tiveram em outros países. Estudos de saúde pública sobre a China apontam que tributação baixa, advertências fracas nas embalagens e fiscalização desigual dificultam a redução do tabagismo.

O contraste fica mais evidente quando se olha para a meta oficial. A estratégia China Saudável 2030 prevê reduzir a taxa de fumantes entre pessoas com mais de 15 anos para 20% até 2030. O país chegou a 23,2% em 2024, ainda acima do alvo. A distância não parece enorme no papel, mas envolve centenas de milhões de pessoas em um mercado protegido por monopólio estatal.

A questão política não é se Pequim conhece o problema. Conhece. O ponto é que o tabaco financia parte importante do Estado chinês, sustenta regiões produtoras, movimenta cadeias industriais e segue socialmente enraizado, sobretudo entre homens. Quando o mesmo poder público arrecada, regula e se beneficia da venda, a política de saúde perde força antes de chegar ao maço.

Para o Brasil, a pauta interessa por outra razão. O país já enfrentou o tabaco com propaganda restrita, advertências sanitárias, ambientes fechados sem fumo e aumento de preço.

No Brasil, a virada cultural teve cenas quase impensáveis para o leitor de 2026. Em 23 de outubro de 1995, no programa Roda Viva, da TV Cultura, o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, defendeu a lei antifumo em restaurantes e a obrigatoriedade do cinto de segurança diante de jornalistas que tratavam as medidas como excesso do poder público.

O trecho voltou a circular anos depois porque inverte a caricatura política: Maluf, conservador histórico, aparece defendendo a saúde coletiva, enquanto entrevistadores reagiam em nome da liberdade individual do fumante. A frase atribuída a ele naquele debate resume o ponto: o direito de fumar não autoriza impor fumaça ao vizinho.

A experiência brasileira mostra que política pública muda comportamento quando governo não trata cigarro como simples fonte de caixa. A China, ao contrário, transformou o cigarro em um dilema de Estado: quanto mais vende, mais arrecada; quanto mais arrecada, mais difícil fica reduzir a dependência.

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