Camilo Santana (PT-CE) assumiu em 8 de julho de 2026 a liderança do Partido dos Trabalhadores (PT) no Senado Federal no lugar de Teresa Leitão (PT-PE), deslocada para a liderança do governo, e herdou uma pauta trabalhista travada na mesa de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP): a proposta que reduz a jornada e acaba com a escala 6×1.
A notícia não está no currículo de Camilo, ex-ministro da Educação e ex-governador do Ceará. Está na função que ele passa a exercer. Como líder da bancada petista, ele terá de negociar votações, orientar o partido e representar o PT justamente no momento em que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 virou queda de braço entre governo, centrais sindicais, empresários e a presidência do Senado.
A PEC altera o artigo 7º da Constituição Federal para reduzir a jornada máxima semanal para 40 horas, prever dois dias de repouso semanal remunerado e impedir redução salarial. O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados, chegou ao Senado em 28 de maio de 2026 e, segundo a própria página de tramitação do Senado, permanecia em 8 de julho com o status de “aguardando despacho”.
Esse é o conflito concreto. A Câmara já votou. O Senado ainda não definiu o caminho. A proposta não está em vigor, não mudou a jornada de nenhum trabalhador e ainda depende da tramitação na Casa revisora.
Alcolumbre já avisou que a PEC não irá diretamente ao plenário. Em 2 de junho, o presidente do Senado afirmou que o texto deveria passar pelas comissões, porque a Casa não poderia apenas “carimbar” uma proposta discutida durante meses pelos deputados. A fala sinalizou o uso da prerrogativa institucional da presidência, mas também deu ao setor contrário à mudança mais tempo para reorganizar a pressão.
A tensão subiu em 7 de julho. Após o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (PT-SC), dizer que Alcolumbre poderia ser tratado como “inimigo” caso não despachasse a PEC da jornada para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a Presidência do Senado respondeu em nota que não aceitaria “pressões, intimidações ou ameaças”. A nota também afirmou que a definição da pauta e da tramitação é prerrogativa constitucional da presidência da Casa.
Camilo assume, portanto, uma bancada que precisa decidir se continuará apostando na pressão pública ou se buscará uma negociação mais silenciosa com Alcolumbre, Otto Alencar (PSD-BA), líderes partidários e senadores de centro. A escolha terá consequência direta para o calendário da PEC.
A mudança de liderança também desloca Teresa Leitão para outro papel. Como líder do governo no Senado, ela passa a defender a articulação do Palácio do Planalto na Casa. Como líder do PT, Camilo terá de cuidar da bancada partidária. Na prática, governo e partido passam a atuar em duas mesas diferentes, mas sobre a mesma pauta.
Para o PT, a escala 6×1 virou uma bandeira de alto valor eleitoral porque conversa com trabalhadores do comércio, serviços, supermercados, shoppings, teleatendimento, segurança privada, limpeza, bares, restaurantes e setores com jornada presencial intensa. Para os adversários da proposta, o risco está no custo de adaptação das empresas, especialmente pequenas e médias, e na reorganização de escalas.
O impasse interessa diretamente ao Paraná. Flávio Arns (PSB), Oriovisto Guimarães (PSDB) e Sergio Moro (PL) terão de votar se a PEC chegar ao plenário. Antes disso, também podem atuar politicamente para acelerar, modificar ou retardar a tramitação. A posição dos três ainda precisa ser cobrada de forma pública e objetiva: defendem a redução da jornada sem corte salarial, querem alteração no texto ou preferem manter a escala 6×1 como regra possível?
Gleisi Hoffmann (PT), deputada federal pelo Paraná e principal nome petista no estado, também entra no radar da cobrança política. A pergunta é se ela apoiará a estratégia de pressão pública adotada por Pedro Uczai ou se defenderá uma negociação conduzida por Camilo Santana para evitar que Alcolumbre transforme o rito legislativo em barreira permanente.
O Senado tem o direito de discutir, alterar e votar a PEC. O trabalhador tem o direito de saber quem quer votar, quem quer mudar o texto e quem prefere deixar a proposta sem data. A chegada de Camilo à liderança do PT não destrava a escala 6×1 por si só, mas muda o interlocutor petista no momento em que a pauta deixou de ser apenas trabalhista e virou disputa de autoridade no Congresso.
O nó político está aí: Camilo não estreia diante de uma pauta qualquer. Estreia diante de uma promessa social aprovada na Câmara, parada no Senado e capaz de medir até onde o PT consegue transformar maioria parlamentar pontual em mudança concreta na vida de quem trabalha seis dias para descansar um.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




