Documentos enviados pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado expuseram pagamentos declarados pelo Banco Master a escritórios e empresas ligados a políticos, ex-ministros e grupos empresariais com influência pública. Com a notificação extrajudicial apresentada pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE) para forçar a instalação de uma CPI ou Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) e com a defesa técnica feita pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, no Senado, o caso já saiu do balcão bancário e entrou no terreno da crise institucional.
A lista citada pela Receita inclui o ex-presidente Michel Temer, Henrique Meirelles, Guido Mantega, o ex-ministro Ricardo Lewandowski, Antônio Rueda, ACM Neto, Marconi Perillo e empresas do Grupo Massa, da família do governador Ratinho Júnior (PSD-PR). Segundo as reportagens publicadas na quarta-feira (8), o banco declarou R$ 10 milhões ao escritório de Temer, R$ 18,5 milhões a Meirelles, R$ 14 milhões à consultoria de Mantega, ao menos R$ 6,1 milhões à Lewandowski Advocacia e R$ 24 milhões a empresas do Grupo Massa; os citados afirmam, em notas, que os valores correspondem a serviços efetivamente prestados.
A malha de influência ficou mais delicada porque os documentos também alcançam o entorno do Judiciário. A CNN informou que os dados remetidos à CPI registram R$ 80,2 milhões ao escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre 2024 e 2025.
No Senado, Girão elevou a temperatura nesta quarata e comunicou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que apresentou notificação extrajudicial pedindo a instalação de CPMI ou CPI para investigar o Master, liquidado pelo BC em novembro de 2025. Segundo a Agência Senado, o parlamentar afirmou que o pedido reúne 239 deputados e 42 senadores e que sua instalação seria obrigação constitucional, não favor político.
No mesmo dia, Galípolo foi à CPI do Crime Organizado e sustentou duas teses que pesam no debate. Disse que não atuou pessoalmente no caso Master junto ao STF nem ao Palácio do Planalto, afirmou que não havia amparo técnico para suspender o banco antes do fim de 2025 e declarou que auditorias e sindicâncias internas não encontraram “qualquer culpa” de Roberto Campos Neto.
A tensão cresce porque a CPI tenta ganhar mais tempo para analisar documentos e colher provas, enquanto Campos Neto faltou pela terceira vez ao colegiado, depois de sua convocação ter sido convertida em convite pelo STF. Na prática, o caso já alcança o Legislativo, porque a investigação corre no Senado; o Judiciário, porque o caso encostou no Supremo; e o Executivo, porque Galípolo relatou ter recebido de Lula a orientação para agir com critério técnico.
O desgaste atinge o sistema inteiro, mas o abalo político imediato bate com força em setores da direita e do centro-direita. Na mesma leva de documentos aparecem Temer, ACM Neto, Antônio Rueda, Fabio Wajngarten, Ronaldo Bento, Marconi Perillo e empresas da família Massa, num momento em que esse campo tenta reorganizar candidaturas e discurso moralista para 2026.
Wajngarten disse ao Blog do Esmael que não há nada de ilegal e que prestou serviços ao Master, a exemplo de outros conhecidos advogados.
No Paraná, o efeito é particularmente ruim para o entorno de Ratinho Júnior. Os documentos citados pela velha mídia apontam R$ 24 milhões em repasses declarados a empresas do Grupo Massa, enquanto o grupo afirma que o governador não integra o quadro societário dessas empresas; politicamente, a revelação chega logo depois de Ratinho ter desistido, em 23 de março, da disputa presidencial para permanecer no cargo e tentar administrar a própria sucessão.
O caso Master também respinga no pré-candidato ao Palácio Iguaçu, senador Sergio Moro (PL), cobrado por uma manifestação sobre o escândalo. Adversários do ex-juiz o acusam de passar pano para Ratinho Junior porque sonha com o apoio do governador nas eleições de outubro de 2026.
Nada disso surpreende quem acompanha o Blog do Esmael. Quando o dinheiro grosso do sistema financeiro aparece espalhado por gabinetes, escritórios, partidos e grupos empresariais com peso político, o problema deixa de ser contábil e vira crise do podre poder dos oligarcas da Faria Lima e da velha mídia corporativa.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




