Os Estados Unidos concluíram na noite de sábado, 18 de julho, a oitava rodada consecutiva de ataques contra o Irã e transformaram a morte de dois militares americanos na Jordânia em motivo declarado para ampliar a ofensiva. O novo bombardeio atingiu instalações de vigilância costeira, defesa aérea, capacidade naval e depósitos de mísseis e drones, segundo o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom).
O fato novo não é apenas a continuidade dos ataques. A guerra entrou numa etapa de retaliação direta por mortes em combate. O Centcom informou que forças americanas também atingiram integrantes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica responsabilizados pelo ataque de 17 de julho contra militares dos Estados Unidos na Jordânia.
Dois militares morreram, um continuava desaparecido e quatro precisaram ser levados a hospitais jordanianos depois da ofensiva iraniana com mísseis balísticos e drones. Os quatro hospitalizados receberam alta, de acordo com o comando americano.
A sequência desmonta a versão de que Washington voltou a bombardear apenas por causa das mortes. Os ataques americanos já tinham sido retomados havia uma semana, depois que Donald Trump declarou encerrado o acordo temporário firmado com Teerã. A morte dos militares mudou, porém, a justificativa da oitava noite e reduziu ainda mais o espaço político para uma nova suspensão das hostilidades.
A Associated Press informou que o acordo provisório destinado a encerrar a guerra entrou em colapso. Um negociador iraniano anunciou a suspensão dos compromissos assumidos por Teerã, enquanto os Estados Unidos restabeleceram o bloqueio naval contra embarcações que entram ou saem de portos iranianos.
A oitava noite concentrou ataques em áreas ligadas à capacidade iraniana de controlar o Estreito de Ormuz. A ofensiva também danificou, segundo a imprensa estatal do Irã, uma ponte e dois túneis na principal estrada para Bandar Abbas, cidade localizada perto do trecho mais estreito da passagem marítima.
Ormuz não está completamente aberto nem formalmente bloqueado para toda a navegação. O bloqueio anunciado pelos Estados Unidos atinge navios com destino ou origem em portos iranianos. O Centcom afirma que permite a circulação de embarcações comerciais que não violem a medida. O Irã, por sua vez, diz ter interrompido a passagem de navios e ameaça embarcações que não sigam rotas determinadas por Teerã.
Na prática, a rota funciona sob intervenção militar, ameaças, inspeções e risco de ataque. A ausência de um fechamento total não significa normalidade. Cerca de um quinto do petróleo e do gás negociados no mundo atravessa a passagem em períodos de paz, o que transforma qualquer interrupção em pressão sobre preços, fretes e seguros.
A guerra também se espalhou pelas bases e pela infraestrutura dos aliados americanos no Golfo. Kuwait e Bahrein voltaram a ativar sistemas de defesa diante de mísseis e drones iranianos. O Kuwait acusa Teerã de atingir instalações de energia e dessalinização, enquanto o Irã sustenta que reage aos ataques americanos contra pontes e estruturas de eletricidade dentro de seu território.
Para o motorista brasileiro, o diesel pode subir, mas o aumento não é automático nem pode ser calculado apenas pela quantidade de bombas lançadas. O preço final depende das cotações do petróleo e dos derivados, do dólar, dos valores cobrados nas refinarias, dos tributos, do biodiesel, dos custos de distribuição e das margens dos postos. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) também inclui frete, movimentação e armazenamento no cálculo da paridade de importação em portos como Paranaguá.
A Petrobras afirma que sua política comercial busca evitar o repasse imediato da volatilidade internacional aos preços internos. Essa decisão pode amortecer oscilações de poucos dias, mas não elimina o risco caso a guerra prolongue a alta do petróleo, restrinja a oferta de diesel importado ou encareça o transporte marítimo.
O Paraná está exposto por outra frente. Paranaguá é a principal porta brasileira de entrada de fertilizantes, e os portos paranaenses receberam mais de 11 milhões de toneladas desses produtos em 2025. Uma crise prolongada em Ormuz pode afetar cargas originadas no Golfo, disponibilidade de navios, seguros e contratos internacionais, ainda que nem todo fertilizante importado pelo estado atravesse o estreito.
Portos do Paraná, cooperativas e importadores precisam informar quantos contratos estão vinculados a fornecedores do Golfo, quais cargas dependem de Ormuz, quais seguros cobrem risco de guerra e qual parcela das compras da próxima safra já está embarcada. Sem esses dados, não há base para anunciar falta de fertilizantes, mas também não há justificativa para tratar a oitava noite como um episódio distante do campo paranaense.
A morte de militares americanos retirou a guerra do terreno das ameaças e produziu uma retaliação assumida. Enquanto Washington e Teerã disputam Ormuz, o custo econômico pode chegar ao Brasil pelo diesel, pelo frete e pelos insumos agrícolas antes que qualquer lado admita interesse em reconstruir a trégua.
Acompanhe no Blog do Esmael a guerra no Golfo e seus efeitos sobre o Paraná e o Brasil.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




