A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quinta-feira, 9 de julho, nova fase da Operação Compliance Zero contra o publicitário Thiago Miranda, ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, para apurar uma suposta atuação coordenada contra o Banco Central (BC), jornalistas e executivos do mercado financeiro. A decisão foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e desloca o caso Master do campo do rombo bancário para uma disputa mais grave: poder privado tentando constranger regulador, imprensa e mercado.
Miranda é fundador da agência Mithi e aparece na investigação como articulador de uma rede digital que, segundo a PF, teria usado recursos ligados às fraudes do Master para atacar a credibilidade do Banco Central. A operação cumpriu dois mandados de busca e apreensão em Brasília e mirou financiadores e articuladores de campanhas digitais contra a autarquia financeira.
O ponto central da investigação não é apenas a falência do Banco Master. A pergunta institucional agora é outra: até onde um grupo privado, sob suspeita de fraude financeira, tentou pressionar autoridades, produzir ruído contra decisões técnicas e intimidar quem investigava ou criticava a operação?
Mensagens obtidas pela PF indicam que Daniel Vorcaro e Thiago Miranda articularam uma devassa sobre dados pessoais da jornalista Malu Gaspar, de O Globo. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) cobraram investigação imediata sobre o episódio e trataram o caso como tentativa de intimidação ao trabalho jornalístico.
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicam que Miranda teria repassado informações pessoais e financeiras da jornalista a pedido do ex-banqueiro, em uma tentativa de frear apurações sobre o Banco Master. Contratos firmados pela Mithi com influenciadores somavam R$ 8 milhões e perfis remunerados pela agência promoveram ataques coordenados contra o Banco Central e contra Renato Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução da autarquia.
O clipping da nova fase registra ainda que a PF aponta levantamento sobre Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco. Esse dado amplia o alcance político e econômico da apuração porque coloca a investigação no território sensível da disputa entre bancos, regulador e formadores de opinião.
Thiago Miranda é alvo de busca e apreensão, não condenado. Daniel Vorcaro também deve ser tratado como investigado nos fatos em apuração, sem conversão automática de suspeita em culpa. A relevância pública está no método investigado pela PF: a possível combinação entre dinheiro, campanha digital, tentativa de desmoralização do Banco Central e intimidação de jornalistas.
O Blog do Esmael já havia informado, em março, que a investigação sobre Vorcaro atingiu ex-integrantes do Banco Central, com suspeitas de apoio regulatório clandestino e propina. O site também apontou que a queda do Banco Master alcançou fundo garantidor, banco estatal, fundos públicos e autoridades com diferentes graus de proximidade com o ex-banqueiro.
No Paraná, a nova fase da Compliance Zero aumenta o custo político para o campo que orbitou Flávio Bolsonaro (PL-RJ) depois das revelações sobre o financiamento privado do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro admitiu tratativas privadas com Vorcaro para financiar o filme e negou contrapartida política, segundo a Reuters.
A conexão paranaense não está em mandado contra Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) ou Filipe Barros (PL), mas no palanque. Em 29 de maio, Flávio Bolsonaro participou em Curitiba do lançamento da pré-candidatura de Moro ao governo do Paraná, ao lado de Deltan Dallagnol e Filipe Barros, que se apresentaram como nomes ao Senado em 2026.
Filipe Barros já havia entrado no radar político do caso Master no Paraná. O Blog do Esmael registrou, em 14 de junho, que reportagens nacionais deslocaram a cobrança sobre o deputado para o palanque de Flávio Bolsonaro no estado, depois de O Globo relacionar iniciativas legislativas do parlamentar a temas de interesse do Banco Master. Filipe nega irregularidade e não foi condenado no episódio.
A nova fase da PF torna a cobrança mais específica. Aliados paranaenses de Flávio Bolsonaro, Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros precisam dizer se consideram aceitável que campanhas digitais sejam financiadas para atacar o Banco Central, se defendem investigação plena sobre intimidação à imprensa e se sustentam o discurso anticorrupção quando o caso atinge o próprio campo político.
O caso Master já havia atingido projetos presidenciais e estaduais ao transformar relações privadas com Daniel Vorcaro em passivo público. Agora, com a PF mirando a estrutura de comunicação atribuída ao entorno do ex-banqueiro, o problema deixa de ser apenas quem recebeu, quem pediu ou quem intermediou dinheiro. A questão passa a ser quem tentou fabricar pressão contra instituições que decidiram, fiscalizaram ou publicaram informações incômodas.
Para a política paranaense, a consequência é direta. O palanque de 2026 não será medido apenas por pesquisa, convenção e fotografia de aliados. Também será medido pela resposta que seus personagens darão quando a investigação sai do banco quebrado e entra no terreno da intimidação contra regulador, imprensa e mercado.
Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura política do Paraná, de Brasília e das eleições de 2026.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




