Flávio Bolsonaro elevou a temperatura da sucessão presidencial ao admitir que existe um preço para desistir da própria pré-candidatura ao Planalto. A fala, solta com naturalidade a jornalistas após seu primeiro compromisso público como postulante do PL, escancarou o verdadeiro objetivo da jogada, que passa menos pela disputa eleitoral e mais pela sobrevivência política da família Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que há uma possibilidade concreta de não seguir até o fim e que isso dependeria de uma negociação política a ser revelada nesta segunda. Questionado sobre se o “preço” envolveria o Congresso pautar a anistia, respondeu que o tema “está quente”. A declaração recoloca no centro do tabuleiro a obsessão de Jair Bolsonaro, preso e condenado a 27 anos e 3 meses, por uma saída jurídica que lhe devolva direitos políticos e reduza a pena.
A leitura imediata no mundo político é que Flávio transformou a pré-candidatura em instrumento de pressão direta sobre o Congresso. A tática mira líderes do Centrão, que resistem ao nome do senador e veem o movimento como um balão de ensaio do próprio Jair Bolsonaro. A família tenta manter relevância, mas a reação foi majoritariamente negativa, inclusive entre aliados que preferem uma alternativa mais competitiva em 2026.
A Faria Lima reagiu mal. A simples notícia da pré-candidatura derrubou a bolsa e fez o dólar disparar, sinal da desconfiança dos investidores sobre o risco de radicalização no próximo ciclo eleitoral. Flávio classificou o movimento do mercado como “natural”, porém “precipitado”, tentando conter o estrago, mas sem oferecer sinais concretos de estabilidade.
Nos bastidores, líderes do Centrão avaliam que a fala do senador reforça a percepção de que sua entrada no jogo responde mais ao desespero do pai do que a um projeto eleitoral real. A candidatura de Flávio, para esses dirigentes, funciona como moeda de troca na luta por anistia e como cortina de fumaça para preservar Jair Bolsonaro da irrelevância simbólica que teme enfrentar dentro da prisão.
A equação complica ainda mais o caminho de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, preferido da elite financeira e visto como nome mais viável da direita em 2026. Uma candidatura de Flávio, mesmo que simulada, atrapalha a transição interna para o projeto Tarcísio, que poderia migrar ao PL se houvesse garantia de unidade. A fala sobre “preço” torna tudo mais instável.
A dúvida que paira em Brasília não é se Flávio desistirá, mas quanto custará essa desistência e quem pagará a conta política. O bolsonarismo opera com a lógica de se manter no centro do noticiário, mesmo que à base de chantagem explícita. E o País, mais uma vez, paga a volatilidade produzida por essa estratégia.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




