A pesquisa divulgada nesta quarta-feira (9) pelo Instituto Paraná Pesquisas sobre a disputa ao governo de São Paulo em 2026 revelou muito mais do que números. Com Ricardo Nunes (MDB) liderando com 29,9% das intenções de voto, a sondagem acendeu um sinal de alerta no bolsonarismo, mas não por medo da esquerda. O temor agora vem de dentro: a possível traição.
Nos bastidores, aliados de Tarcísio de Freitas (Republicanos) já operam em ritmo de sucessão. O prefeito Ricardo Nunes aparece como candidato do grupo à cadeira no Palácio dos Bandeirantes, o que pressupõe, nas entrelinhas, que Tarcísio deixará o governo de São Paulo para concorrer à Presidência da República. Oficialmente, no entanto, o governador afirma que disputará a reeleição.
A dubiedade do discurso irritou figuras próximas de Jair Bolsonaro. Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência e atual conselheiro informal do clã Bolsonaro, reagiu publicamente no X (antigo Twitter). “Falta conversar com quem tem os votos”, escreveu. Em tom crítico, acusou aliados de articularem “uma candidatura presidencial nas costas do governador”.
A publicação foi interpretada como recado direto a Orlando Morando, Secretário Municipal de Segurança, e entusiasta da chapa Tarcísio Presidente e Nunes Governador, exatamente o slogan usado na imagem divulgada por ele nas redes. O material apresentava dados da pesquisa com destaque para Nunes, ao lado de Morando e com a frase: “Para o Brasil voltar a dar certo”.
A guerra fria dentro do bolsonarismo paulista
A movimentação pró-Nunes é lida por interlocutores do Planalto como uma tentativa de empurrar Tarcísio para o Planalto, indicando que setores da direita admitem que o ex-presidente saiu oficialmente do jogo. Para essas alas mais fiéis a Bolsonaro, que ainda o enxergam uma candidatura viável, qualquer plano paralelo é tratado como traição.
“Estão chifrando Bolsonaro”, escreveu um influenciador ligado ao PL. A leitura é a de que há uma tentativa silenciosa de enterrar politicamente o ex-capitão, e também seu filho Eduardo, mencionado nominalmente por Wajngarten, impondo Tarcísio como candidato inevitável da direita em 2026.
O problema, porém, está longe de ser apenas simbólico. Bolsonaro, inelegível, ainda detém influência decisiva no eleitorado conservador, e não aceitará ser escanteado sem reação. Sua ala vê a ascensão de Tarcísio com desconfiança, sobretudo após gestos recentes do governador paulista em direção a figuras do centrão e até ao STF.
Leia também no Blog do Esmael:
- Tarcísio lidera todos os cenários em São Paulo, diz Paraná Pesquisas
- Trump ataca STF e cobra: “Deixem Bolsonaro em paz”, alerta crise Brasil-EUA
- Faria Lima quer Tarcísio no Planalto sem Lula nem Bolsonaro
Ricardo Nunes é apenas o peão, ou o próximo governador?
O prefeito de São Paulo surge como peça-chave nessa disputa silenciosa. Ao lado de Morando, ele já veste a camisa de candidato a governador. A pesquisa que o coloca com quase 30% dos votos reforça sua viabilidade, e o alívio do campo bolsonarista mais moderado, que prefere Nunes a nomes mais radicais.
Mas tudo depende da equação nacional. Se Tarcísio realmente disputar o Planalto, abre-se o tabuleiro. Caso contrário, o MDB pode ter que rever a estratégia. A questão que paira sobre a cabeça de aliados e adversários é simples e incômoda: Tarcísio fica, sai ou trai?
Enquanto a resposta não vem, o campo da direita segue mais dividido que conta de calouro em boteco, e o silêncio de Bolsonaro parece cada vez mais barulhento.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




