Enio Verri: Bolsonaro e Guedes matam a soberania brasileira

Enio Verri*

A pandemia torna o fato ainda mais dramático. Porém, com ou sem ela, o governo Bolsonaro tem a característica de ser predatório. O Brasil necessitará de suas ferramentas públicas para sair, também, da crise econômica, o que torna a política do atual governo especialmente destrutiva. Sem as empresas estratégicas será impossível ao País estabelecer um desenvolvimento soberano, à altura do patrimônio brasileiro e das competências da população que o constrói desde sempre. Enquanto o presidente pronuncia barbaridades sem sentido e fora de contexto, Paulo Guedes e os abutres do mercado financeiro agem para alterar artigos, parágrafos, incisos e alíneas de leis que permita ao passageiro governo se desfazer de patrimônios construídos com o suor, o sangue, a genialidade, o domínio científico e tecnológico e a malemolência brasileira. Aliás, a política predatória encontra mais apoio no Congresso Nacional que o próprio presidente.

Guedes, recentemente, com sua atabalhoada competência, anunciou que se livraria do segundo maior banco da América Latina, o Banco do Brasil. Sem apresentar um único argumento válido que legitime a proposta, o desgoverno Bolsonaro pretende fechar 361 agências e demitir mais de cinco mil servidores. Uma ostensiva política de desmantelamento de um banco fundamental para a agricultura, a indústria e o comércio. Destrói a ferramenta ao invés de usá-la’ para investir no desenvolvimento do País, com oferta de crédito a juros baixos, como fez os governos do Partido dos Trabalhadores, quando o lucro do banco saiu de R$ 2 bilhões, em 2002, para R$ 16 bilhões, em 2013. A privatização está reservada, também, à Caixa, ao BNDES, aos Correios e a tantas outras empresas fundamentais. Bolsonaro e Guedes são prosélitos da teoria da dependência, defendida por FHC, que é a subordinação cordata de um país a outro.

O atual governo é do mesmo modelo daqueles de 1989 a 2002. A diferença entre aqueles e o atual é que Bolsonaro é geneticamente ligado ao autoritarismo, às torturas e mortes cometidos pela ditadura civil-militar que governou, de 1964 a 1985. Contudo, ambos os tipos de governo se alinham, tanto no falso moralismo, quanto no ultraliberalismo e na patética ideia de reduzir o tamanho do Estado de um país que é referência planetária em desigualdade. Imbuído do firme propósito de reconduzir este País ao tempo do carro de boi, este governo age deliberadamente para que a nação não se desenvolva tecnológica e culturalmente. É mais um crime contra a pátria, que Bolsonaro tanto diz estar acima de tudo. A engenharia brasileira, a Petrobras e, consequentemente, o Brasil, ficarão estagnados e obsoletos porque a orientação do governo é para que a empresa contrate a construção de equipamentos, como navios e plataformas, na Asia, onde vai gerar 80 mil empregos.

A Petrobras passou a ser sistematicamente atacada, em 2014, pela fraudulenta operação Lava Jato. Segundo a imprensa, a empresa estava quebrada. Contudo, em 2015, a petroleira brasileira foi a Houston, no Texas, receber o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, que é o maior prêmio que uma petroleira do seu porte pode receber, pela competência no desenvolvimento de tecnologia. Esse reconhecimento foi o resultado de décadas de investimentos. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore – Sinaval, o suposto baixo custo de construção na China não compensa. De acordo com o sindicato, a produção da Petrobras é superior em qualidade tecnológica e ela tem as competências para cumprir os prazos de entrega. Porém, o mal mais profundo é que o presidente do Brasil vai investir em produção tecnológica e geração de empregos em outros países, quando poderia alavancar a engenharia nacional e gerar milhões de postos de trabalho ao longo de uma extensa cadeia produtiva, que consequentemente aqueceria a economia e aumentaria a arrecadação de impostos. Porém, infelizmente, Bolsonaro veio para matar e Guedes para suprimir a soberania.

*Enio Verri é economista a professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados.