Acordo ou leões? A batalha final entre a aliança do Coliseu e a política

O jornalista Ricardo Cappelli, didaticamente, detalha em 13 pontos a operação para salvar não só Lula da prisão. Segundo ele, o acordo envolvendo o STF também beneficiaria Temer, Aécio, Lula e uma infinidade de políticos atacados pela lava jato.

Acordo ou leões? A batalha final entre a aliança do coliseu e a política

Por Ricardo Cappelli*

Acompanharam os movimentos? Prestem atenção:

1 – O Ministro Dias Toffoli libera para pauta do STF o debate sobre o fim do foro privilegiado. O placar já está em 8 x 0 pelo fim do foro. Toffoli pediu vista já sabendo do resultado. O que o levou a liberar o processo agora? Sem foro, o processo da maioria dos políticos acusados pela Lava Jato irá para primeira instância.

2 – É aí que entra Gilmar Mendes e o grande acordo para salvar a política. O Estadão divulgou o novo placar no STF. Segundo o jornalão, o fim da prisão em segunda instância ganharia hoje por 6 x 5. Votariam contra a prisão Toffoli, Celso De Mello, Marco Aurélio, Rosa Weber, Lewandowski e… Gilmar, o único a mudar de posição. Sem foro e com o fim da prisão em segunda instância, todos os processos iriam para a primeira instância. Prisão? Só após o longo processo até o STJ.

3 – O jornal mineiro “O Tempo” divulga que Aécio não será candidato este ano. Por que correria o risco de uma prisão rápida, em segunda instância, abrindo mão do foro? O Tucano está contando que a decisão será revertida, o que torna o caminho para uma eventual prisão muito mais lento.

4 – Este acordo beneficiaria Temer, Aécio, Lula e uma infinidade de políticos atacados pela Lava Jato. Soltaria também empresários. Temer disse a Meirelles que sua atividade política está voltada para a sua própria proteção. Sabe o que o espera quando deixar o governo se as condições atuais não forem alteradas.

5 – Acordo costurado, entra em cena a Aliança do Coliseu formada pela Globo com setores antinacionais da burocracia estatal que deseja jogar aos leões a política brasileira. A Globo exige em novo editorial a prisão de Lula. Entope a caixa postal dos ministros do STF com posições contra a alteração da prisão em segunda instância. Coloca no ar uma exclusiva com a Presidente Cármen Lúcia reafirmando sua posição contrária. É guerra!

6 – Cármen Lúcia reafirma que não pautará a revisão da prisão em segunda instância. Diz, entretanto, que qualquer um pode levar um habeas corpus específico para ser julgado no plenário da corte. Porém, este julgamento será sobre as particularidades do caso específico, sem repercussão geral. Segundo a Ministra, a jurisprudência atual se manteria inalterada.

7 – A posição irredutível de Cármen Lúcia “empena” o acordo. Nenhum dos Ministros quer levar ao plenário da corte apenas o HC de Lula ou de outro personagem. Ninguém quer assumir o desgaste de um caso específico. E o mais importante, para o acordo fechar tem que alterar a jurisprudência para todos, não só para Lula.

8 – No auge do enfrentamento entra em ação a tropa de choque da Aliança. Com a Globo exigindo sangue aos Leões, o juiz Marcelo Bretas ataca Gilmar numa rede social. O Torquemada Deltan Dallagnol segue o mesmo caminho. Usa a grande mídia para dizer que a “Cruzada Santa” está ameaçada pelo fim da prisão em segunda instância.

9 – A execução brutal de Mariele amplia o receio da repercussão de uma eventual prisão de Lula. Ninguém sabe como um doente vai reagir à terapia de choques sucessivos. Um padre chamado de filho da puta no meio de uma missa no Rio por defender a vereadora sinaliza como está o clima no país.

10 – A imprensa puxa também Azeredo para a cena. O “fantasma Tucano de Minas” até hoje aguarda sua prisão. O encarceramento de Lula abrirá definitivamente a caixa de pandora. Com o ex-presidente preso mais prisões, de todos os lados, devem acontecer. Vai ficar insustentável apenas Lula preso. Zé Dirceu, Azeredo, Paulo Preto, Serra, alguns ocupantes do Planalto e muitos outros aguardam na fila preocupados.

11 – Esta semana o Ministro Luiz Fux acelerou o processo de Bolsonaro no STF. Se condenado pelo Supremo Tribunal Federal, o fascista pode também ser impedido de registrar sua candidatura. Não se enganem. Ele incomoda também o sistema. Bate tanto na Globo como na esquerda. Seria a vitória total da Aliança, uma eleição de escolhidos numa democracia de fachada.

12 – Ameaçado o acordo da política, Celso de Mello, o decano, convoca uma reunião pouco usual com os Ministros para discutir a crise. Desafia subliminarmente a autoridade de Cármen Lúcia. A presidenta cancela na prática o encontro ao não convocá-lo. A crise se aprofunda.

13 – No acordo Lula não seria preso, mas estaria impedido de disputar as eleições. Continuaria, solto, como o maior cabo eleitoral do pleito.

É a batalha final entre dois campos. Não existe espaço para visões ingênuas e puristas. De um lado a prevalência da política, da soberania popular através do voto, mesmo com o impedimento de Lula. Na batalha, se não pode ganhar tudo, minimizar as baixas e manter um Marechal na linha de frente pode ser um bom caminho.

Do outro lado a marcha da insensatez, a caminhada de ódio que tirou o gênio do fascismo da garrafa e envenenou a sociedade brasileira. Destruiu nossa economia. Jogou pessimismo em nosso horizonte. Prometem um amanhã colorido após jogarem a política aos Leões. O que desejam colocar no lugar? Uma tecnocracia positivista antinacional e antipovo.

O embate ganha contornos decisivos. Nada está definido. Que a política saia vitoriosa.

*Ricardo Cappelli é jornalista e secretário de estado do Maranhão, cujo governo representa em Brasília. Foi presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) na gestão 1997-1999.

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