Abaixo os imbecis!

Mino Carta.

Mino Carta.

Excelente editorial da revista CartaCapital, desta semana, assinado pelo jornalista Mino Carta, no qual analisa as causas da imbecilização da sociedade brasileira. Vale a pena conferir:

A imbecilização do Brasil

Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há muito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…

Os derradeiros, notáveis intérpretes da cultura brasileira já passaram dos 60 anos, quando não dos 70, como Alfredo Bosi ou Ariano Suassuna ou Paulo Mendes da Rocha. Sobra no mais um deserto de oásis raros e até inesperados. Como o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça, que acaba de ser lançado, para os nossos encantos e surpresa.

Nos últimos dez anos o País experimentou inegáveis progressos econômicos e sociais, e a história ensina que estes, quando ocorrem, costumam coincidir com avanços culturais. Vale sublinhar, está claro, que o novo consumidor não adquire automaticamente a consciência da cidadania. Houve, de resto, e por exemplo, progressos em termos de educação, de ensino público? Muito pelo contrário.

Nossa vanguarda. Imbatíveis à  testa da Operação Deserto

E houve, decerto, algo pior, o esforço concentrado dos senhores da casa-grande no sentido de manter a maioria no limbo, caso não fosse possível segurá-la debaixo do tacão. Neste nosso limbo terrestre a ignorância é comum a todos, mas, obviamente, o poder pertence a poucos, certos de que lhes cabe por direito divino. Indispensável à  tarefa, a contribuição do mais afiado instrumento à  disposição, a mídia nativa. Não é que não tenha servido ao poder desde sempre. No entanto, nas últimas décadas cumpriu seu papel destrutivo com truculência nunca dantes navegada.

Falemos, contudo, de amenidades do vídeo. De saída, para encaminhar a conversa. Falemos do Big Brother Brasil, das lutas do MMA e do UFC, dos programas de auditório, de toda uma produção destinada a educar o povo brasileiro, sem falar das telenovelas, de hábito empenhadas em mostrar uma sociedade inexistente, integrada por seres sem sombra. Deste ponto de vista, a Globo tem sido de uma eficácia insuperável.

O espetáculo de vulgaridade e ignorância oferecido no vídeo não tem similares mundo afora, enquanto eu me colho a recordar os programas de rádio que ouvia, adolescente, graciosas, adoráveis peças de museu como a PRK30, ou anos verdolengos habitados pelos magistrais shows de Chico Anysio. Cito exemplos, mas há outros. Creio que a Globo ocupe a vanguarda desta operação de imbecilização coletiva, de espectro infindo, na sua capacidade de incluir a todos, do primeiro ao último andar da escada social.

O trabalho da imprensa é mais sutil, pontiagudo como o buril do ourives. Visa à  minoria, além dos donos do poder -real, que, além do mais, ditam o pensamento único, fixam-lhe os limites e determinam suas formas de expressão. O alvo é a chamada classe média alta, os aspirantes, a segunda turma da classe A, o creme que não chegou ao creme do creme. E classe B também. Leitores, em primeiro lugar, dos editoriais e colunas destacadas dos jornalões, e da Veja, a inefável semanal da Editora Abril. Alguns remediados entram na dança, precipitados na exibição, de verdade inadequada para eles.

Aqui está a bucha do canhão midiático. Em geral, fiéis da casa-grande encarada como meta de chegada radiosa, mesmo quando ancorada, em termos paulistanos, à s margens do Rio Pinheiros, o formidável esgoto ao ar livre. E, em geral, inabilitados ao exercício do espírito crítico. Quem ainda o pratica, passa de espanto a espanto, e o maior, se admissível a classificação, é que os próprios editorialistas, colunistas, articulistas etc. etc. acabem por acreditar nos enredos ficcionais tecidos por eles próprios, quando não nas mentiras assacadas com heroica impavidez.

O deserto cultural em que vivemos tem largas e evidentes explicações, entre elas, a lassidão de quem teria condições de resistir. Agrada-me, de todo modo, o relativo otimismo de Alfredo Bosi, que enriquece esta edição. Mesmo em épocas medíocres pode medrar o gênio, diz ele, ainda que isto me lembre a Península Ibérica, terra de grandes personagens solitárias em lugar de escolas do saber. Um músico e poeta italiano do século passado, Fabrizio de André, cantou: “Nada nasce dos diamantes, do estrume nascem as flores”. E do deserto?

11 Comentários

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  1. Continuo otimista principalmente porque temos jornalistas do calibre de Mino Carta e sua equipe. Da forma como o povo e tratado pela nossa grande midia, seremos crescentemente beneficiados, havera um crescimento de revista tipo Carta Capital e Tv como Tv Brasil e, consequentemente queda de Globo, Veja, etc.

  2. Sou mais o texto do Guilhobel.

    Mas muito mais, mesmo!

  3. Nenhum dos citados ganhou um NOBEL, ou algum premio internacional de relevância, portanto…
    Gênios são reconhecidos aqui e lá fora.

  4. Nesta falta de produção está, incluive, este Sr. Mino Carta.

  5. HOje de cem palavras na midia ,e dos politicos , é ética ,transparencia que eles dizem .Mas não sobra nada para projeto de governo ,projeto social. não existe oradores que sem medo colocava suas ideias. transparencia ,é etica não e um projeto . Mas apenas se esconde atraz da incopetencia.Vou novamente dizer que todos são levados pela avalanche humana, com a de porto alegre. A loucura que vimos, na politica de hoje é assim tambem!

  6. Aliás, dona globo tem grande parcela de culpa no cartório da história, face ao processo perverso de imbecilização de grande parte do povo brasileiro que vem de longa data.

  7. Tudo verdade; pura verdade!. E a desgraça está evidente: GLOBO, VEJA e outros do contexto continuam apostando NA INCAPACIDADE DE DISCERNIMENTO DO POVO BRASILEIRO, COM ÊNFASE À JUVENTUDE !!. Novelas apelativas, alguns seriados do mesmo perfil, BBB o carro-chefe das bestialidades sem início, meio e fim no que se refere a EVENTUAL MENSAGEM; programa oco com “direito” a proliferações em vários canais da rede a cabo: TREMENDA APELAÇÃO, VERDADEIRA SACANAGEM, DECADÊNCIA MORAL !!!. Infelizmente, ainda existem adeptos -aqueles em quem o PIG aposta…

  8. Brasil ultrajado

    Por Guilhobel Aurélio Camargo

    Eu sou o Brasil e estou ultrajado
    Você é o Brasil e está ultrajado

    Ultrajado, por atos criminosos dos políticos que me governam.

    Ultrajado, pela falta de decência dos agentes públicos que cuidam de si, usando meu nome.

    Ultrajado, por ver meus filhos recebendo esmolas que trocam pela dignidade “de ser cidadão”.

    Ultrajado porque o alimento no prato não alimenta a alma dos meus filhos humildes.

    Ultrajado porque o estado toma do cidadão o suor do trabalho, e o politico subtrai para seu beneficio o sangue do povo.

    Ultrajado porque tudo que o estado dá é tirado do próprio cidadão, que é sugado com “monstruosa derrama”, diminuindo o bem estar dos meus filhos.

    Ultrajado porque vejo a dor nos corredores dos hospitais.

    Ultrajado porque “vejo a ignorância” instruindo meus filhos.

    Ultrajado porque vejo as drogas contaminando meu povo.

    Ultrajado pela insegurança patrocinada pelo descaso dos governantes.

    Ultrajado quando vejo “um filho meu” drogado na sarjeta,”fugindo da luta”.

    Ultrajado quando crianças matam crianças, na pior das guerras do mundo.

    Ultrajado pela promiscuidade reinante entre os três Poderes.

    Ultrajado porque em nome da democracia – a tirania da minoria, eleita pelo povo – se sobrepõem a maioria para saqueá-la.

    Ultrajado quando temos o mais sofisticado sistema para eleger governantes, escolhendo a pior escória de políticos.

    Ultrajado porque os políticos da minha pátria tornaram a democracia um instrumento da maior corrupção que tenho noticia.

    Ultrajado porque a corrupção dos políticos corrompe os princípios de meus filhos.

    Ultrajado porque a política pública, em minhas terras, nada mais é que a própria corrupção.

    Ultrajado porque o espírito de minha raça está entregue a agentes públicos safados que, como urubus, habitam o interior dos prédios públicos.

    Ultrajado porque vejo que meu povo, “deitado eternamente em berço esplêndido”, perde a honra que é o primeiro passo para jogar no lixo a “alma da nação”.

    Ultrajado porque sou grande e generoso, dou terras férteis e ricas, água em abundância, clima invejável, povo hospitaleiro e trabalhador e, infelizmente, políticos safados.

    Ultrajado porque meu povo tem vergonha de se indignar.

    Ultrajado porque os meus filhos tratam os governantes como patrões quando são empregados.

    Ultrajado porque “o brasileiro é o povo que troca protestar pelo silêncio dos covardes”.

    Ultrajado porque o roubo da honra de meus filhos empobrece a pátria e acaba com os meus cidadãos.

    Ultrajado porque meus filhos não se levantam e estão caminhando para a escuridão.

    (Por Guilhobel, do Brasil ultrajado)
    http://www.gazetadenovo.com

  9. O que deve ser aprimorado no Brasil é o ensino de Artes ( dança, música, teatro, literatura, artes visuais), filosofia e sociologia, pois estas disciplinas transformam e criam senso crítico além de deixar as pessoas mais inteligentes. A luta dos artes educadores nas escolas e colégios públicos é penosa, falta de estrutura, alguns profissionais desqualificados, etc. O acesso a cultura erudita deveria ser mais facilitado para a população, pois apenas as regiões mais desenvolvidas economicamente tem acesso a esta cultura. Segundo Eça de Queiroz ” Os políticos e a as fraldas são semelhantes , possuem o mesmo conteúdo “, acredito que esse é um dos muitos motivos para termos programas de televisão na rede aberta tão acéfalos.

  10. Esmael

    Vc tá chorando de barriga cheia, agora temos:

    Mírian Leitoa, Merdal Pereira, Arnaldo Pavor, Wíllian Bronha, Lúcia Hipolitro e muitos outros.

  11. Em apertada análise concordo plenamente com Mirno Carta. O país está mergulhado no mar da insensatez intelectual, por consequência nos tornamos manipuláveis sem oferecer nenhuma resistência por pilares do cimento interior do conhecimento.