Hugo Chávez corteja pobres com “suco socialista”

via Folha.com

“Suco socialista” na Venezuela.

Na fábrica Lácteos Los Andes, expropriada pelo governo Hugo Chávez em 2008, nem as frutas escapam da retórica nacionalista.

“Lácteos Los Andes são sabores da nossa terra, é #FrutaSoberana maracujá, manga, goiaba e mais”, anuncia o Twitter oficial.

Na distribuidora da empresa em Caracas, o porta-voz do sindicato da unidade, Julio Molina, 34, explica: “Antes não trabalhávamos com frutas criollas [nacionais], só com polpa importada. Mudou muito tudo por aqui”, segue ele que garante que acabou a divisão entre operários e gerência desde a expropriação.

A marca, que leva simpático coraçãozinho com a inscrição “hecho em socialismo” também presente em chocolates e café estatais, ganha espaço em prateleiras de supermercados e é um dos poucos casos nos quais uma empresa expropriada aumentou a produção, ainda que a amargou queda de lucros de 23% em 2011.

Ao lado dos mercadinhos e supermercados estatais que vendem a preços subsidiados, são uma arma usada por Chávez para conquistar bolsos e votos nas eleições presidenciais de domingo.

“A qualidade é excelente e os preços não têm comparação”, diz Zulena Alzauro, 52, com sucos e leites da marca numa sacola. Ela cruzou a cidade ontem para fazer compras no mega Bicentenário inaugurado pelo presidente em plena campanha, em agosto. “Achei tudo hoje”, comemora.

Nem sempre é assim. Para achar leite, açúcar ou azeite nos mercadinhos subsidiados é preciso acordar à s 5h da manhã, conta Zulena, que não reclama. “Chávez não tem como melhorar. Ele é perfeito.”

HECHO EN VENEZUELA

Outros casos de nacionalizações em que as empresas seguiram operantes e cresceram é o Banco de Venezuela, o maior do país, comprado do Santander em 2008, e da telefônica Cantv.
à‰ um universo ínfimo se considerada a miríade de nacionalizações que Chávez intensificou a partir de 2007 e não poupou nem joalherias nem shoppings.

Só no ano passado, foram 499 empresas no setor industrial segundo o jornal econômico “El Mundo”. Até economistas ligados ao governo, como o ex-ministro das Indústrias Básicas, Victor àlvarez, aponta problemas: o governo não tem quadros para comandar essa imensidão de negócios.

Chávez foi confrontado pelo fracasso de ao menos um setor nacionalizado durante a campanha.

Em visita a Cidade Guayana em agosto, sede das siderúrgicas nacionalizadas que vivem crise de produção e sindicais, ouviu os gritos de “Justiça! Justiça!” em transmissão ao vivo pela TV, logo cortada.

O candidato da oposição, Henrique Capriles, sai pela tangente na campanha quando fala do tema. Promete não fazer mais expropriações, mas também manter o setor siderúrgico nas mãos do Estado e não haverá demissões no setor público e estatal.

Contra o “hecho en socialismo” lançou “hecho en Venezuela”, e garante que diminuirá importações, num recado que direciona ao Brasil, 3 maior fornecedor dos anos Chávez.

TRABALHADOR SOCIALISTA

Na distribuidora Lácteos Los Andes, o porta-voz sindical Julio Molina diz que vai votar em Chávez no domingo em nome do país que ele quer para seus “três filhos ‘hechos en revolución'”, que nasceram já nos anos Chávez. Não “hechos en socialismo”? “Para o socialismo ainda falta uma luta grande e bonita pela frente”, rebate Molina.

A batalha não está 100% decidida nem na distribuidora.

Deixando o trabalho ontem, o auxiliar Alberto José, 21, abriu o sorriso de aparelho ortodôntico multicolorido quando questionado quem quer que seja presidente. “Estou em dúvida. Tenho até domingo para pensar.”

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