A cena que chocou Porto de Galinhas, com turistas agredidos após divergência na cobrança de cadeiras e guarda-sol, virou alerta nacional sobre praias sem regra, sem fiscalização e sem planejamento. No Paraná, o roteiro se repete com superlotação recorde, torneiras secando em Matinhos, Guaratuba e Pontal do Paraná e uma orla “emagrecida” em Matinhos, mesmo após obras milionárias.
Do paraíso ao conflito: quando a praia vira terra de ninguém
Em Porto de Galinhas (Ipojuca-PE), um casal de turistas de Mato Grosso relatou agressões depois de contestar a cobrança pelo uso de cadeiras, com variação de preço no momento do pagamento, e o caso passou a ser investigado pela delegacia local. O episódio é didático: quando o espaço público é capturado por práticas abusivas e a fiscalização some, a violência ocupa o lugar do ordenamento.
Balneário Camboriú (SC), vitrine da verticalização e do turismo de massa, vive outra face do mesmo problema: o salto populacional sazonal pressiona saúde, limpeza, mobilidade e segurança, e a cidade precisa montar operação de guerra para não colapsar.
Paraná superlota, água falta, o básico vira “luxo” na temporada

No litoral do Paraná, a virada para 2026 levou mais de 2 milhões de pessoas às praias, segundo estimativa da Polícia Militar, com grande concentração em Guaratuba, Matinhos e Pontal do Paraná. O impacto aparece no que não cabe em foto de rede social: fila, lixo, disputa por espaço e sobrecarga dos serviços.
A Sanepar, estatal de saneamento, anunciou em 31 de dezembro de 2025 a redução de pressão na distribuição de água justamente nos horários de pico, em Matinhos, Guaratuba e Pontal do Paraná, alegando consumo elevado e reservatórios no limite. Para moradores e veranistas, isso se traduz em torneira seca no almoço e no fim de tarde, o coração do verão.
A conta política cai no colo do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), que patrocina a propaganda do “Verão Maior” enquanto a infraestrutura essencial patina quando a população multiplica.
O secretário de Estado da Infraestrutura, Sandro Alex, atribuiu a superlotação nas praias ao efeito da obra da ponte Guaratuba–Matinhos. A mobilização pela construção, vale lembrar, ganhou campanha pública em 2011 no Blog do Esmael e, naquele momento, reuniu apoio de entidades empresariais, autarquias como o CREA e sindicatos de trabalhadores, além de outros setores da sociedade civil. Segundo Alex, a população teria sido tomada por uma curiosidade súbita para acompanhar o andamento da obra, o que ajudaria a explicar a superlotação e até a falta de água no litoral.
Matinhos emagrece: a areia some, o risco fica

O “emagrecimento” das areias em Matinhos voltou ao centro do debate após uma nova erosão ao lado da estrutura de shows do Verão Maior Paraná, com paredão e degrau na faixa de areia e necessidade de reposição, segundo reportagens locais e a própria resposta do governo.
O JB Litoral e a TVCI mediram a largura da faixa de areia na área do palco e descreveu um vai e vem que expõe fragilidade do planejamento costeiro: ampliação após a engorda, seguida de perda acelerada até voltar, na prática, ao patamar pré-obra em 2025. Quando a natureza cobra, cobra com juros, e quem paga é a população local, o comércio e o próprio turismo.
Sanepar: escândalos não resolvidos, confiança corroída

O problema não é só operacional, é institucional. O Ministério Público do Paraná, via Gaeco, denunciou 26 pessoas investigadas na Operação Ductos, apurando suspeitas de crimes ligados a contratos e corrupção envolvendo a Sanepar, com denúncia publicada em 22 de junho de 2021.
O escândalo voltou à pauta nas vésperas do Réveillon após o vazamento de áudios “apimentados”, supostamente envolvendo pessoas com ligação política ao governo e a secretarias de Estado. Também vieram à tona relatos sobre ex-funcionários da companhia de água e esgoto com patrimônio aparentemente incompatível com a renda, enquanto, na ponta, as torneiras permaneceram secas no início da temporada.
Some-se a isso o histórico de embates e questionamentos no controle externo. O Tribunal de Contas do Paraná, por exemplo, registrou julgamento relacionado a multas aplicadas a ex-presidente da companhia, mostrando que a estatal permanece no radar das instituições.
Quando falta água no pico da temporada e a empresa carrega investigações e controvérsias, a mensagem para o cidadão é tóxica: “aguente firme”, enquanto o poder público segue administrando crise, não prevenindo.
O que precisa mudar para o litoral não virar tragédia anunciada

Planejamento de capacidade de carga, ordenamento do comércio na areia, fiscalização real e contingência de saneamento não são luxo, são pré-requisito civilizatório. E política pública séria tem de conversar com ciência costeira, proteção de restinga e obras com transparência, não com marketing sazonal.
O verão é democrático, mas o caos não pode ser normalizado. Sem encarar a Sanepar e sem tratar Matinhos como prioridade ambiental e social, Ratinho empurra o litoral para um modelo predatório que explode conflito, degrada a praia e humilha quem mora lá o ano inteiro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




