A Transparência Internacional no Brasil (TI-Brasil) divulgou um ranking global de percepção de corrupção e tentou enquadrar o país como “estagnado” e dominado por “impunidade”. O problema é que a entidade faz esse julgamento público carregando um passivo de credibilidade: há determinações de apuração a partir de questionamentos sobre sua proximidade com procuradores ligados à operação Lava Jato e seu papel em discussões sobre o destino de dinheiro bilionário oriundo de acordos.
Não se trata, aqui, de discutir se o indicador é bom ou ruim, nem de negar que o Brasil tenha problemas graves de corrupção, captura do orçamento e promiscuidade entre poder e interesses privados. O contraponto é outro, mais básico: quem se apresenta como fiscal moral do país precisa ter biografia limpa de atalhos, bastidores nebulosos e conexões impróprias com autoridades.
A TI-Brasil nega irregularidades. Diz que não recebeu recursos e que sua atuação foi técnica, em defesa de boas práticas. Esse registro é obrigatório. Só que, no debate público, reputação não nasce de nota oficial. Nasce de transparência integral, prestação de contas e distância segura de estruturas de poder que, ontem, tentaram criar mecanismos paralelos de controle de recursos públicos.
O mundo político conhece esse capítulo. Em Curitiba, no rastro da Lava Jato, houve a tentativa de desenhar uma fundação abastecida por valores bilionários provenientes de acordos no rastro da Petrobras, com governança fora do controle democrático direto e com participação de atores do mesmo ecossistema que se beneficiaria da agenda financiada. Esse modelo virou ícone da tentação de transformar combate à corrupção em projeto de poder.
Quando uma organização do terceiro setor aparece orbitando esse tipo de arranjo, ainda que alegue apenas “apoio técnico”, ela perde a prerrogativa de apontar o dedo como se fosse imune às contradições que denuncia. É simples: se a régua moral tem rachadura, o sermão perde força.
Há outro ponto que precisa ser dito com honestidade. Rankings de percepção não são inventários de casos concretos. Eles capturam o humor de especialistas e de oligarcas do sistema financeiro, a temperatura política e o barulho institucional. Um país que investiga mais, expõe mais e pune mais pode piorar na percepção exatamente porque faz a sujeira aparecer. Isso não é defesa de governo nem ataque a oposição. É método científico.
Por isso, quando a TI-Brasil publica o ranking e, na mesma tacada, emenda análises com tom de julgamento político, ela deixa de ser apenas observadora e vira personagem. A fronteira entre diagnóstico e campanha fica tênue. E, em ano eleitoral, a tentação de transformar um indicador em munição é grande.
E aí entra a ironia curitibana: até as capivaras do Parque Barigui percebem quando alguém troca a máscara pelo palanque.
O Brasil precisa de combate à corrupção com instituições fortes, transparência e imprensa livre. Precisa de controle social e de regras que não sejam escritas por corporações, gabinetes ou “salvadores” de ocasião. O que o país não precisa é de santo de barro tentando monopolizar a moral pública enquanto carrega dúvidas relevantes sobre sua própria conduta e seus próprios vínculos.
Se a TI-Brasil quer ser levada a sério nesse debate, o caminho é direto: abrir tudo, explicar tudo, documentar tudo. E reconhecer que, sem lastro moral, qualquer avaliação vira ruído, não contribuição.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




