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Surtos cobram de Flávio Bolsonaro a conta da Covid

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, tenta se vender em 2026 como “Bolsonaro vacinado”, mas os surtos de Ebola e hantavírus recolocam a Covid no centro da memória política brasileira nesta terça-feira (26), com uma pergunta incômoda para o clã: quem negou ciência quando o país precisava de vacina pode agora posar de moderado?

A lembrança não é abstrata. O Brasil alcançou, em março de 2023, a marca oficial de 700 mil mortes por Covid-19, segundo o Ministério da Saúde. A própria pasta afirmou que milhares de histórias poderiam ter sido diferentes com vacinação e coordenação sanitária.

O novo alerta internacional vem de duas frentes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou, em maio de 2026, surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, provocado pela espécie Bundibugyo, para a qual não há vacina nem tratamento específico aprovado.

No caso do hantavírus, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) informou que o surto ligado ao cruzeiro M/V Hondius somava, até 24 de maio, 12 casos, sendo 10 confirmados, e 3 mortes. O órgão avaliou como muito baixo o risco para a população geral da União Europeia, mas manteve a vigilância por causa do período longo de incubação.

Nenhum dos dois surtos autoriza pânico no Brasil. O ponto político é outro. Ebola e hantavírus lembram que vírus não respeitam fronteiras, calendário eleitoral ou slogan de campanha. Quando a resposta pública falha, a conta passa do hospital para a política.

Foi isso que marcou a Covid no governo do então presidente Jair Bolsonaro (PL). A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia acusou o governo federal de negligenciar a compra de vacinas, com atraso na imunização da população. O Blog do Esmael registrou que o relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), apontou “atraso deliberado” na compra de imunizantes como a omissão mais grave do governo federal.

Flávio Bolsonaro tenta escapar desse passivo com uma vacina no braço e uma frase de marketing. Em julho de 2021, ele recebeu a primeira dose contra a Covid-19 e disse “vamos vacinar”. Em 2026, passou a se apresentar como o “Bolsonaro vacinado”, dentro da operação para vender ao eleitor uma imagem menos radical que a do pai.

O problema é que a vacina pessoal não apaga a biografia política. Na pandemia, Flávio Bolsonaro defendeu cloroquina, sem eficácia comprovada contra a Covid, criticou isolamento social e apoiou a campanha bolsonarista contra restrições sanitárias no começo da pandemia.

A contradição tem peso eleitoral porque a disputa de outubro não será julgada apenas pelo que Flávio Bolsonaro diz ser. Será julgada também pelo que o bolsonarismo fez quando o país contava mortos, disputava oxigênio, buscava vacina e via a ciência ser tratada como inimiga por setores do governo.

O caso BolsoMaster agrava essa travessia. O Blog do Esmael mostrou que Flávio Bolsonaro tenta reagir ao desgaste provocado por sua ligação com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e que o senador admitiu ter tratado com o banqueiro de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro, embora negue irregularidade.

A pesquisa Datafolha já captou parte do estrago político. Segundo o Blog do Esmael, Lula passou a vencer Flávio Bolsonaro por 47% a 43% no segundo turno, enquanto o senador caiu de 35% para 31% no primeiro turno. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores em 139 cidades e foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07489/2026.

A memória da Covid, portanto, chega à eleição por dois caminhos. O primeiro é sanitário: o mundo voltou a discutir preparação, cooperação internacional, vigilância e vacina. O segundo é político: o herdeiro eleitoral de Jair Bolsonaro tenta moderar a marca familiar ao mesmo tempo em que carrega a negação científica do passado e o escândalo financeiro do presente.

No Paraná, esse debate encosta em Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL), aliados que miram 2026 e precisam decidir quanto custo aceitam dividir com Flávio Bolsonaro. Se o discurso do “Bolsonaro vacinado” já tinha fissura na memória da Covid, o BolsoMaster colocou a fatura sobre a mesa.

Ebola e hantavírus não são a Covid de 2020. O que eles reabrem, porém, é a lembrança de um país que perdeu ao menos 700 mil pessoas enquanto a política brincava com ciência, máscara, vacina e isolamento. Em 2026, essa memória volta contra quem tenta trocar histórico por embalagem eleitoral.

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