O presidente dos EUA, Donald Trump, perdeu no Supremo Tribunal e respondeu dobrando a aposta na guerra comercial. Na sexta-feira (20), a Suprema Corte derrubou a maior parte do tarifaço imposto por “poderes de emergência”, e Trump anunciou uma tarifa global de 10% sobre importações, além de atacar ministros da Corte em público.
A decisão, por 6 votos a 3, é um recado institucional raro no segundo mandato: o tribunal disse que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza o presidente a criar tarifas amplas sem aval do Congresso. O voto do presidente da Corte, John G. Roberts Jr., foi acompanhado por dois indicados de Trump, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, o que aumentou o peso político do revés.
Trump tentou transformar a derrota em combustível. Em vez de recuar, anunciou que usará outro caminho legal para impor uma taxa de 10% sobre praticamente tudo que entra nos EUA, com vigência prevista para segunda-feira (23), apelando à Seção 122 da Lei de Comércio de 1974.
O problema é que esse “plano B” tem coleira curta. A Seção 122 permite sobretaxa temporária, com teto de 15% e duração inicial de 150 dias, salvo extensão pelo Congresso. Na prática, Trump ganha fôlego, mas perde o cheque em branco que tentou sacar via emergência.
Ao mesmo tempo, a Casa Branca acenou com novas investigações sob a Seção 301, mecanismo que abre caminho para tarifas adicionais depois de apuração formal sobre “práticas comerciais desleais”. É o tipo de trilha que cria incerteza prolongada para cadeias globais e encarece decisões de preço, estoque e investimento.
Durante uma coletiva de imprensa, Trump escalou o conflito institucional. Chamou ministros da Suprema Corte de “tolos” e “lacaios”, sugeriu influência estrangeira não especificada e mirou diretamente Gorsuch e Barrett, numa tentativa de rebaixar os juízes ao nível do palanque. O recado é político: quando o freio constitucional funciona, ele tenta vender o freio como “inimigo do povo”.
Para o comércio global, a conta chega sem retórica. A tarifa “plana” de 10% cria um imposto geral embutido em cadeias produtivas, com repasse parcial a consumidores e empresas, e um efeito perverso, a instabilidade contínua faz o mundo operar em modo “provisório”, esperando o próximo decreto, a próxima ação judicial, o próximo recuo.
No Brasil, o risco é duplo: encarecimento de itens importados que passam pelos EUA e aumento da volatilidade em negociações setoriais, especialmente quando Washington ameaça abrir investigações por “deslealdade” comercial. Em ambiente de tarifaço errático, até parceiro vira alvo por conveniência doméstica.
Dito isso, a derrota na Suprema Corte não encerra a guerra comercial de Trump, só muda o roteiro. O que era “emergência” vira “gambiarra legal” com prazo, e o mundo segue pagando o preço de um presidente que tenta governar a economia global no grito. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




