Banqueiros articulam nos bastidores para transformar um rombo privado em conta pública, ao empurrar a crise do BRB, o Banco de Brasília, para o colo dos contribuintes por meio de uma “federalização” ou de uma engenharia financeira que socialize prejuízos e preserve ganhos.
A conversa, revelada pela Folha, gira em torno de uma saída em que o BRB seria absorvido por um banco público federal, como Banco do Brasil ou Caixa, ou receberia uma injeção de capital que pode chegar a R$ 6 bilhões, com alternativas como empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e consórcio de grandes bancos, compra de títulos subordinados e outras manobras para recompor capital e liquidez.
O detalhe político é o que os banqueiros preferem não dizer em voz alta: o objetivo final seria “sanar” o BRB para que ele honre compromissos ligados ao Banco Master, liquidado pelo Banco Central, e, nesse rearranjo, aliviar o impacto sobre o FGC, que tem estimativa de desembolso na casa de dezenas de bilhões de reais após o colapso do Master.
Na hora do lucro, eles pregam “livre mercado”, “risco calculado”, “eficiência”. Na hora do prejuízo, reaparece o socialismo bancário, com pedido de federalização, linha de crédito coletiva e, se der, o contribuinte como fiador do estrago.
Aí fica a pergunta que dói porque é simples: quem é mais socialista, o militante de esquerda que pede direitos ou o banqueiro que pede socorro público para cobrir aposta mal feita?
Não é papel do Tesouro virar seguradora de oligarcas do sistema financeiro e da velha mídia corporativa, que têm interesses e propriedades cruzadas.
O Banco Central tem autonomia legal desde a Lei Complementar 179, de 2021, com mandatos fixos para sua diretoria e objetivos definidos em lei, justamente para blindar a autoridade monetária de pressões políticas e de mercado.
Autonomia, porém, não significa cheque em branco para o andar de cima transferir risco para o orçamento público quando a aposta dá errado.
O FGC, por sua vez, é uma associação privada, sem fins lucrativos, do Sistema Financeiro Nacional, criada para proteger depositantes e investidores e ajudar a estabilidade do sistema, não para virar atalho de resgate com dinheiro público disfarçado.
Se os grandes bancos defendem que o “sistema” precisa ser preservado, então que preservem com o próprio caixa e com as regras do jogo, não com federalização improvisada.
A própria apuração aponta o tamanho do desgaste: a credibilidade do BRB despencou com a conexão com o Master e há incerteza sobre o estrago de operações, como compra de carteiras de crédito sem lastro, além de uma investigação independente tocada por escritório de advocacia e consultoria técnica. Nesse cenário, qualquer tentativa de empurrar a solução para BB ou Caixa vira um movimento político, não apenas contábil.
O risco, aqui, é conhecido: privatiza-se o lucro em tempos bons e estatiza-se o prejuízo quando a bolha estoura.
Se o BRB precisa de capital, que o controlador assuma o custo com transparência, debate público e voto na Câmara Legislativa do DF, sem atalhos que envolvam a União por osmose. E se o “mercado” quer salvar sua engrenagem, que banque a própria engenharia, sem sequestrar o orçamento de um país desigual.
O Brasil não aguenta mais essa lógica de castas, onde o cidadão paga e os mesmos de sempre passam ilesos.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.


Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




