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Quem é mais ladrão, quem rouba um banco ou quem funda um banco?

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que viveu entre 1898 e 1956, provocava plateias com dilemas que atravessam gerações. Um deles segue pulsando: “Quem é mais ladrão, quem rouba um banco ou quem funda um banco?”.

A pergunta voltou à mesa em uma recente reunião de amigos e familiares, enquanto se discutia a Selic em 15% ao ano, uma das maiores taxas de juros do planeta. Não é difícil perceber que o sistema financeiro, sustentado por oligarcas da Faria Lima e seus sócios na velha mídia, continua drenando recursos públicos sob a capa da “normalidade econômica”.

Esses mesmos grupos, donos de propriedades cruzadas entre bancos e veículos de comunicação, escandalizam-se com a elevação do Fundo Eleitoral aprovada nesta terça-feira (30) pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso. O relator-geral, deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL), ajustou a proposta para destinar R$ 4,9 bilhões ao financiamento das eleições de 2026, retirando recursos de emendas de bancada e despesas não obrigatórias.

Ao comparar o fundo partidário com a fatia do orçamento federal que os bancos capturam via pagamento de juros da dívida, conforme dados oficiais do Portal da Transparência, a sensação é de espanto. O gasto com juros da União consome centenas de bilhões de reais por ano. Frente a esse número, os bilhões do fundo eleitoral não passam de “peanuts” [mixaria, em português].

O mesmo se aplica ao Bolsa Família, programa social que hoje garante em média R$ 600 mensais a mais de 20 milhões de famílias. Seu custo anual gira em torno de R$ 168 bilhões. Uma fração mínima quando colocada lado a lado com os quase R$ 1,997 trilhão destinados a poucos rentistas em 2024, equivalente a 42,96% do Orçamento da União. Ainda assim, é o Bolsa Família que sofre constantes ataques dos ricaços da Faria Lima e da mídia corporativa.

A fotografia da dívida pública impressiona. Em dezembro de 2024, o Brasil acumulava R$ 9,48 trilhões em dívida interna e outros US$ 616,9 bilhões em dívida externa. Esse passivo monumental jamais passou por uma auditoria oficial, apesar de estar prevista no Artigo 26 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da Constituição de 1988.

Passados 37 anos da promulgação da Carta, a determinação nunca foi cumprida pelo Congresso Nacional nem pelo Poder Executivo. O resultado é que seguimos pagando juros bilionários aos rentistas sem que a sociedade saiba exatamente a origem, a legalidade e a legitimidade de cada parcela dessa dívida.

Portanto, permanece válida a provocação de Brecht. O ladrão que assalta um banco choca, mas o banqueiro que se apropria do orçamento nacional por meio de juros abusivos e amortizações naturaliza a pilhagem com apoio político e midiático.

No Brasil, onde a política é criminalizada e os oligarcas são blindados, urge repensar o dilema brechtiano. Quem é mais ladrão? O assaltante de banco ou quem funda um banco?

O Congresso Nacional visto da perspectiva do STF. Foto: Pedro França/Agência Senado
O Congresso Nacional visto da perspectiva do STF. Foto: Pedro França/Agência Senado

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