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A TV Globo dedicou 4 minutos e 15 segundos no Jornal Nacional para espinafrar o rombo de R$ 55 bilhões nas contas públicas, na sexta-feira (30), mas não disse uma frase sobre o verdadeiro responsável pelo buraco: a taxa de juros Selic em 15%, mantida pelo Banco Central “independente”, que transfere bilhões do Orçamento da União para meia dúzia de banqueiros e especuladores.
A omissão não é distração editorial. É escolha política e econômica da emissora carioca.
Quatro minutos de narrativa, zero segundo de verdade
Na edição da semana passada, o telejornal da Globo apresentou o déficit como consequência de “gastos excessivos”, estatais mal geridas e falta de “reformas”. O espectador foi conduzido à conclusão desejada: o Estado gasta demais, o governo erra, o país paga a conta.
O dado central foi censurado. Cada ponto da Selic custa cerca de R$ 55 bilhões por ano ao Tesouro Nacional. Com a taxa em 15%, o Brasil convive com quinze Bancos Master drenando recursos públicos anualmente. O rombo exibido no telão tem exatamente esse tamanho.
O culpado invisível
Quase metade da dívida pública federal está atrelada diretamente à Selic. Quando o Copom mantém juros estratosféricos, o custo do serviço da dívida sobe automaticamente. Não depende de Bolsa Família, SUS ou universidade pública. Depende de uma decisão monetária que remunera títulos e engorda balanços.
O Jornal Nacional preferiu mirar os Correios. Preferiu entrevistas com consultorias de mercado. Preferiu entrevistar a raposa do que ouvir a galinha. Preferiu falar em “arcabouço fiscal”. Preferiu não dizer que o buraco nasce no andar de cima.
Independência para quem?
O Banco Central, presidido por dirigentes não eleitos, opera sob o manto da “independência”. Na prática, essa autonomia tem servido para blindar uma política que beneficia rentistas e penaliza a economia real. Crédito caro trava investimento, derruba consumo, freia empregos e salários.
O resultado é um paradoxo que a Globo evita explicar. Juros altos aumentam a dívida, a dívida vira pretexto para manter juros altos. O ciclo se retroalimenta, enquanto a conta cai no colo da sociedade.
A vigarice do debate fiscal
A demonização do investimento público cumpre função clara. Ao pintar gasto social como vilão, abre-se espaço para a captura privada do Orçamento da União. Menos Estado para investir. Mais Estado para pagar juros.
Não é coincidência. A velha mídia corporativa mantém interesses e propriedades cruzadas com bancos e fundos. Juros viram tabu. Questionar a Selic vira heresia. O debate econômico é sequestrado e reduzido a slogans tecnocráticos.
Banco Master como régua política
Quando surge um escândalo bancário, o noticiário se inflama. Mas o escândalo estrutural passa ileso. Um ponto da Selic equivale a um Banco Master por ano. Quinze pontos, quinze escândalos permanentes, legalizados e naturalizados.
Esse dinheiro não aparece como linha explícita no orçamento. Ele aparece como ausência. Falta hospital, falta escola, falta moradia, falta infraestrutura. Sobra remuneração financeira.
Quem paga a conta
A Globo fala em rombo. O que não diz é quem ganha com ele. A Selic não é neutra. É uma escolha distributiva que concentra renda e poder, enquanto a economia popular paga a fatura.
Enquanto a principal emissora do país gastar quatro minutos culpando o gasto público e zero segundo explicando o custo dos juros, o Brasil seguirá refém de uma engrenagem que enriquece poucos e empobrece muitos.
Romper o silêncio é condição para romper o ciclo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




