Enquanto o mundo tenta entender o enredo sangrento da guerra entre Rússia e Ucrânia, o presidente Vladimir Putin resgata um capítulo antigo — mas não menos polêmico — da história mundial: o papel da União Soviética na vitória contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial.
Durante o 3º Congresso Internacional Antifascista, Putin acusou potências ocidentais de distorcerem o resultado do maior conflito do século 20 para atender a interesses políticos. E deixou claro: o Kremlin vai resistir a essa tentativa de “reescrever a memória” e “reduzir a importância dos verdadeiros heróis soviéticos”.
“Devemos isso aos veteranos de guerra e às gerações futuras”, discursou Putin, ao reforçar que 2025 marcará os 80 anos da vitória soviética na chamada Grande Guerra Patriótica.
Moscou volta à carga: agora é guerra de memória
Putin alertou para o avanço do racismo, do neonazismo e da russofobia — palavras que, no dicionário político do Kremlin, vêm sendo associadas diretamente ao governo ucraniano e seus aliados ocidentais.
A defesa da “verdade histórica” sobre o papel da União Soviética no fim do nazismo se tornou também um discurso de guerra. Um contra-ataque simbólico à narrativa ocidental, que acusa a Rússia de repetir, em solo ucraniano, práticas que lembra os próprios horrores do fascismo europeu.
Lavrov no Brasil: Rússia quer negociação, mas sem trégua “armadilha”
Sergey Lavrov e Mauro Vieira. Foto: Fernando Frazão Agência Brasil
Em solo brasileiro, durante reunião dos ministros das Relações Exteriores dos BRICS, o chanceler russo Sergey Lavrov reforçou a disposição da Rússia para iniciar negociações com a Ucrânia sem pré-condições.
Mas há um porém — ou melhor, um mas estratégico:
“Um cessar-fogo mal formulado serviria apenas para rearmar Kiev e fortalecer suas capacidades militares”, advertiu Lavrov.
Na prática, Moscou rejeita qualquer pausa nos combates que não venha acompanhada de monitoramento “claro, diário e imparcial”. Segundo o chanceler, Kiev já violou trégua anterior decretada por ocasião da Páscoa ortodoxa, e o Ocidente está apenas “tentando ganhar tempo” para a Ucrânia.
Derrota estratégica de Kiev seria inevitável?
Para Lavrov, a ilusão de que a Ucrânia poderia impor uma derrota estratégica à Rússia caiu por terra.
“A UE insiste em cessar-fogo incondicional porque está vendo que seus planos estão fracassando”, disse o ministro.
É a narrativa do contra-ataque: a guerra agora não é só no campo de batalha, mas também na arena das percepções globais.
Sobre a participação da União Soviética na Segunda Guerra Mundial
Qual a crítica de Putin ao Ocidente sobre a Segunda Guerra Mundial?
Putin acusa potências ocidentais de tentarem distorcer o papel da União Soviética na vitória contra o nazismo, diminuindo sua importância histórica por interesses políticos.
O que a Rússia propõe em relação à guerra na Ucrânia?
Putin e Lavrov afirmam que a Rússia está aberta a negociações diretas com a Ucrânia, mas sem pré-condições como cessar-fogo unilateral.
Por que a Rússia rejeita o cessar-fogo proposto pelos EUA?
Segundo Lavrov, pausas na guerra podem ser usadas para rearmar o exército ucraniano, prolongando ainda mais o conflito.
O que significa o termo “Grande Guerra Patriótica”?
É o nome dado na Rússia à participação soviética na Segunda Guerra Mundial, especialmente na luta contra a Alemanha nazista entre 1941 e 1945.
Qual o papel do Brasil nessa diplomacia?
O Brasil, como anfitrião da reunião dos BRICS, foi palco das declarações de Lavrov, o que mostra a importância do país nas articulações geopolíticas multilaterais.
Kiev rejeita cessar-fogo do “Dia V” e intensifica ataques, diz diplomata russo
Soldados russos no front da guerra. Foto TASS
O gesto simbólico de Vladimir Putin ao declarar um cessar-fogo humanitário em homenagem aos 80 anos da vitória soviética sobre o nazismo virou alvo de tensão internacional.
Segundo o diplomata russo Rodion Miroshnik, o governo de Vladimir Zelensky estaria sabotando, por todos os meios, a trégua proposta pela Rússia. O embaixador especial, encarregado de investigar crimes do regime ucraniano, acusou Kiev de atacar deliberadamente civis nas regiões da linha de frente, em retaliação à proposta pacífica de Moscou.
“Não são discursos de paz para agradar os americanos. São crimes reais, em silêncio. É sangue de inocentes derramado para inviabilizar o diálogo”, escreveu Miroshnik em seu canal oficial no Telegram.
De acordo com ele, ao menos dois civis morreram e outros 40 ficaram feridos nas últimas 24 horas — justamente após o anúncio do cessar-fogo feito por Putin. O diplomata russo afirma que o uso de armamentos de alta precisão por parte das forças ucranianas comprova a intencionalidade dos ataques.
Putin declara nova trégua simbólica — e novamente ignorada?
O novo cessar-fogo anunciado pelo Kremlin deve vigorar entre 7 e 10 de maio, período que marca as homenagens ao Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica, comemorado como feriado nacional na Rússia.
A trégua, segundo o Kremlin, visa proporcionar “condições mínimas de dignidade e respeito histórico” ao sacrifício dos soldados soviéticos que derrotaram o nazismo. Mas, se seguir o padrão da trégua de Páscoa anterior — violada mais de 4.900 vezes, segundo o Ministério da Defesa da Rússia — a expectativa de paz será mais simbólica do que concreta.
“O que vemos é o uso cínico da data para avançar posições militares. Não há qualquer disposição por parte de Kiev de respeitar a memória histórica ou de proteger civis”, afirma Miroshnik.
Kremlin: “Nazismo ressuscita na Ucrânia e influencia o governo”, diz Peskov
A retórica histórica ganha contornos dramáticos no Kremlin. Em declaração nesta quarta-feira (30), o porta-voz presidencial Dmitry Peskov afirmou que a Rússia não poderia ignorar o renascimento do nazismo na Ucrânia, acusando diretamente o governo de Volodymyr Zelensky de estar sob influência ideológica de grupos ultranacionalistas.
“Os nazistas voltaram a marchar com tochas e começaram a influenciar diretamente o governo. Não podíamos deixar isso passar em branco”, afirmou Peskov durante um evento da sociedade educacional Znaniye.
Segundo o Kremlin, embora o Exército Vermelho tenha esmagado o nazismo ao tomar Berlim em 1945, as raízes dessa ideologia seriam profundas e teriam sobrevivido no subsolo da política europeia — com crescimento acelerado, segundo Moscou, em território ucraniano.
“Quando dizemos ‘regime de Kiev’, não são palavras ao vento”, reforçou Peskov, numa tentativa de legitimar, no plano simbólico, a operação militar russa iniciada em 2022.
Guerra de narrativas e verdades em disputa
Putin joga xadrez com a memória mundial e Lavrov tenta dar xeque no tabuleiro diplomático. O discurso russo ganha força em fóruns alternativos como o BRICS, onde o Ocidente não dita as regras do jogo.
Ao defender a “verdade sobre a Segunda Guerra Mundial” e denunciar o que chama de “neonazismo moderno”, Moscou constrói um discurso onde o passado e o presente convergem — com a Rússia sempre no papel de libertadora.
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