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O Brasil amanheceu neste sábado (17) em meio a uma polêmica que mistura religião, saúde mental e política. O padre Chrystian Shankar, da Diocese de Divinópolis (MG), publicou uma nota contundente em suas redes sociais na qual se recusa a realizar batismos e quaisquer ritos católicos para bonecas do tipo reborn — brinquedos hiper-realistas que imitam bebês humanos.
“Essas situações devem ser encaminhadas ao psicólogo, psiquiatra ou, em último caso, ao fabricante da boneca”, escreveu o religioso, que possui mais de 3,7 milhões de seguidores no Instagram.
O pronunciamento foi motivado por uma onda crescente de pedidos inusitados vindos de “mães” de bonecas reborn, que passaram a procurar igrejas solicitando batismo, catequese, primeira comunhão e até missa de sétimo dia para seus bonecos.
Um retrato do nosso tempo: fé, carência e espetáculo
A fala do padre Chrystian joga luz sobre um fenômeno recente nas redes sociais: o culto afetivo às bonecas reborn. Vídeos de mulheres simulando maternidade com esses brinquedos viralizaram e escancararam uma realidade que vai além do entretenimento — e que, segundo o sacerdote, beira o transtorno.
Na nota, o padre ironizou situações reais:
“Nem oração de libertação para bebê possuído por um espírito reborn. E, por fim, nem missa de Sétimo Dia para reborn que arriou a bateria.”
As declarações dividiram opiniões. Enquanto parte dos fiéis aplaudiu a postura como um resgate da seriedade dos sacramentos, outros acusaram o sacerdote de capacitismo e falta de empatia com pessoas que desenvolvem laços afetivos com os bonecos — muitas delas lidando com lutos, infertilidade ou traumas emocionais.
Congresso entra em cena: projetos para limitar direitos das “mães reborn”
A repercussão do caso não ficou restrita à esfera religiosa. No Congresso Nacional, deputados já se movimentam para conter o avanço do que chamam de “simulação de maternidade” com bonecas hiper-realistas.
Três projetos de lei foram protocolados nesta semana com propostas que vão de sanções administrativas a atendimentos compulsórios. São eles:
- PL 2.326/2025, do deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), veta atendimentos médicos simulados com reborns, inclusive em hospitais públicos e privados;
- PL 2.320/2025, do deputado Dr. Zacharias Calil (União Brasil-GO), proíbe o uso de reborns para obtenção de benefícios como assentos preferenciais e filas especiais;
- PL 2.323/2025, da deputada Rosângela Moro (União Brasil-SP), propõe acolhimento psicossocial para quem cria vínculos afetivos com os brinquedos.
A ofensiva parlamentar mira diretamente o uso de recursos e estruturas públicas para atender essas demandas — consideradas por alguns como delírio coletivo, e por outros como expressão legítima de afeto.
Entre a cruz e o acolhimento
O episódio expõe um dilema contemporâneo: onde termina a fantasia e começa a patologia? Até que ponto a fé — ou o Estado — deve validar vínculos afetivos não convencionais?
Na raiz dessa discussão, está uma sociedade cada vez mais solitária, marcada pela medicalização da vida e pelo esvaziamento de vínculos reais. A busca por afeto em objetos inanimados pode ser vista como sintoma, mas também como grito de socorro.
Ao se negar a celebrar rituais para bonecos, o padre Shankar traça uma linha entre o sagrado e o simbólico. Mas, ao mesmo tempo, lança um desafio à Igreja: como lidar pastoralmente com a dor emocional que leva alguém a procurar sentido até mesmo em uma boneca?
A polêmica está posta. E você, o que pensa?
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




