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Lula tenta conter tarifa dos EUA antes do prazo de julho

Lula (PT) chega à Casa Branca nesta quinta-feira (7) com uma missão que vai além da fotografia ao lado de Donald Trump: reduzir o risco de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros antes do vencimento da cobrança adicional de 10% prevista para julho.

A reunião em Washington foi confirmada pelo governo brasileiro como parte de uma agenda que mistura comércio, minerais críticos e cooperação contra o crime organizado. O ponto que mais mexe com o setor produtivo, porém, está na tarifa. É ali que o aperto pode bater no exportador, no emprego industrial e, por tabela, no bolso do consumidor brasileiro.

A tarifa adicional de 10% aplicada pelos Estados Unidos sob a Seção 122 vale para a maior parte das importações de diferentes países, incluindo o Brasil, entre 24 de fevereiro e 24 de julho de 2026, com exceções específicas. O prazo de julho virou uma linha vermelha para empresas que vendem para o mercado americano e precisam fechar contratos, preço, frete e margem com antecedência.

O problema não termina nesse relógio. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu, em julho de 2025, uma investigação pela Seção 301 contra práticas atribuídas ao Brasil em temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. Esse tipo de investigação pode servir de base para novas medidas comerciais caso Washington conclua que há prejuízo ao comércio americano.

No discurso público, o Pix e o crime organizado ganharam mais barulho. No caixa das empresas, a pergunta é outra: quanto custará vender café, carne, celulose, aço, máquinas, peças e bens industriais para os Estados Unidos se a Casa Branca trocar a tarifa temporária por uma punição mais duradoura?

Os Estados Unidos seguem como mercado decisivo para a pauta brasileira de maior valor agregado. Diferentemente da relação com a China, muito concentrada em commodities, as vendas ao mercado americano incluem petróleo, café, aeronaves, produtos de metal, celulose, carne, suco de laranja e itens industriais. Quando uma tarifa sobe, o impacto não fica preso ao porto. Ele se espalha pela fábrica, pelo produtor rural, pelo transportador e pelo trabalhador da cadeia.

Para o exportador brasileiro, a tarifa funciona como uma cunha no preço. O importador americano paga mais para trazer o produto, tenta repassar ao consumidor ou exige desconto do fornecedor. Se o brasileiro absorve parte da diferença, perde margem. Se não absorve, corre o risco de perder mercado para concorrentes de outros países. Em setores de contrato longo, a incerteza já é um custo.

O alimento entra nessa conta por dois caminhos. O primeiro é a exportação direta de produtos como café, carne e suco de laranja, que têm peso no comércio bilateral. O segundo é o câmbio e a reorganização de mercados. Uma guerra tarifária pode deslocar vendas, alterar estoques e mudar preços relativos. Nem sempre isso barateia a comida no Brasil. Em algumas cadeias, a pressão sobre custos logísticos, crédito e dólar pode caminhar na direção contrária.

A indústria também observa a reunião com lupa. A pauta com os Estados Unidos inclui bens de maior intensidade tecnológica, peças, aviões e produtos intermediários. Uma escalada tarifária torna o produto brasileiro menos competitivo justamente no mercado em que o país consegue vender mais do que minério e soja. É o tipo de disputa que afeta salário, investimento e capacidade de inovação, não apenas a estatística da balança comercial.

Ao levar minerais críticos para a mesa, Lula tenta transformar vulnerabilidade em moeda de negociação. O Brasil tem reservas relevantes para cadeias de energia, defesa, baterias e tecnologia. Trump, por sua vez, busca fornecedores fora da órbita chinesa. A barganha é evidente: Washington quer segurança de suprimento; Brasília quer previsibilidade comercial e menos tarifa.

O governo brasileiro também aposta na cooperação contra o crime transnacional como sinal de boa vontade política. Dario Durigan, ministro da Fazenda, destacou na véspera da reunião a parceria com os Estados Unidos no combate ao tráfico internacional de armas e drogas. Mas o coração econômico da conversa continua sendo a capacidade de impedir que uma divergência comercial vire uma pancada adicional contra setores produtivos brasileiros.

A lembrança de 2025 ainda pesa. Trump elevou tarifas contra produtos brasileiros e vinculou a ofensiva ao ambiente político doméstico do Brasil, em meio ao processo envolvendo Jair Bolsonaro (PL). Depois, parte das medidas foi flexibilizada. A lição para Brasília é simples e dura: quando a tarifa vira instrumento político, a previsibilidade desaparece.

Não há confirmação pública de acordo fechado. O que existe é uma janela curta, até julho, para reduzir o dano e evitar uma nova rodada de retaliação pela Seção 301. Para Lula, arrancar de Trump uma trégua comercial seria mais do que vitória diplomática. Seria proteger exportador, emprego e renda antes que a conta chegue ao consumidor.

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