O presidente Lula (PT) vai à Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, neste domingo (15), para assistir ao desfile da Acadêmicos de Niterói em sua homenagem sob o alerta explícito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que Carnaval não vira salvo-conduto para propaganda antecipada.
Lula deve acompanhar a apresentação no camarote da Prefeitura do Rio, enquanto o Palácio do Planalto tenta reduzir a temperatura política: orientação para ministros e auxiliares evitarem o evento e, principalmente, qualquer manifestação pública que pareça pedido de voto ou peça de campanha.
A escola abre a primeira noite do Grupo Especial com o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”, costurando a biografia do petista e a narrativa social que o acompanha desde o ABC. O ponto sensível é óbvio: ano eleitoral, desfile televisionado, e uma homenagem que a oposição tenta enquadrar como vitrine antecipada para 2026.
O TSE rejeitou pedidos para barrar o desfile antes de ele acontecer, por entender que seria censura prévia, mas deixou recado com endereço certo. A presidente da corte, ministra Cármen Lúcia, disse que a festa popular não pode virar “fresta” para ilícitos e comparou o cenário a “areia movediça”, isto é, quem entra já sabe que pode afundar se houver abuso.
No Planalto, a blindagem veio por nota e por regra. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) divulgou orientações baseadas em consulta à Comissão de Ética Pública e em recomendações que incluem recusar convites de empresas com potencial conflito de interesses, não usar passagens e diárias para agenda privada, registrar atividades institucionais no sistema e-Agendas e evitar manifestações que possam ser interpretadas como propaganda antecipada.
O governo tenta separar cultura de palanque, mas a política empurra de volta. A presença da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja, em carro alegórico reforça o caráter do evento e aumenta o interesse público, porque a imagem fala antes da explicação.
Nos bastidores, aliados divergem sobre o custo-benefício. Um grupo vê risco de vaia, meme e desgaste gratuito num ambiente que não é controlado por governo ou partido. Outro insiste que presidente não pode se esconder de festa popular, e que a plateia está ali para as escolas, não para comício.
O que está em jogo, no fundo, não é samba. É fronteira.
Se o desfile virar peça de mobilização, com exploração eleitoral explícita antes do calendário, a Justiça Eleitoral tem munição para agir depois, inclusive com base em imagens, falas, bandeiras e uso político posterior do conteúdo.
Se ficar no campo artístico, a tentativa de judicializar vira só mais um capítulo do moralismo seletivo que aparece sempre que cultura popular encosta no poder.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




