O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou nesta quarta-feira (8) a ofensiva sobre o Congresso ao colocar o fim da escala 6×1 no centro da vitrine política de 2026. Em entrevista ao ICL Notícias, Lula disse que enviará ainda nesta semana o projeto sobre a jornada de trabalho, afirmou que a próxima eleição terá a defesa da democracia como eixo e repetiu que ainda não decidiu formalmente se disputará a reeleição.
A fala não foi só trabalhista. Ela costurou agenda social e narrativa eleitoral. Ao associar democracia à melhora concreta da vida das pessoas, Lula tentou ligar o debate institucional ao tempo de descanso, ao salário e à rotina de quem trabalha, puxando o 6×1 para o coração da disputa política.
No desenho defendido pelo Planalto, a redução da jornada não pode significar corte salarial. Lula voltou a sustentar que o ganho de produtividade trazido pela tecnologia precisa ser repartido com o trabalhador e indicou que o texto deve abrir espaço para negociação conforme a categoria.
O movimento recoloca tensão imediata na Câmara. Na terça-feira (7), o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), havia dito que o governo não encaminharia projeto com urgência constitucional e que a discussão seguiria pelas propostas já em análise, com admissibilidade prevista para meados de abril e meta de votação em plenário até o fim de maio. Na quarta-feira (8), Lula reabriu a ofensiva e sinalizou que quer imprimir ritmo próprio ao tema.
Na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), a Câmara discute duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs): a PEC 8/25, com semana de quatro dias de trabalho e três de descanso, e a PEC 221/19, que reduz a jornada semanal para 36 horas. Em audiência na terça-feira, representantes do setor produtivo defenderam a negociação coletiva como saída, expondo a resistência empresarial que o Planalto terá de enfrentar.
A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra da Secretaria de Relações Institucionais, é uma das fiadoras dessa agenda no campo governista. Antes de deixar o Planalto para disputar o Senado, Gleisi tratou o fim da escala 6×1 como prioridade legislativa de 2026, admitiu a possibilidade de um projeto do governo para unificar propostas e disse que a articulação vinha sendo feita com líderes e parlamentares.
Lula também fala respaldado por uma opinião pública majoritariamente favorável. Pesquisa Datafolha divulgada em março mostrou 71% de apoio ao fim da escala 6×1, dado que ajuda a explicar por que o governo quer transformar a pauta em teste político para o Congresso.
Ao puxar o 6×1 para dentro da moldura de 2026, Lula tenta falar de democracia a partir da vida concreta do trabalhador e, ao mesmo tempo, forçar a Câmara a sair da ambiguidade. O teste agora sai da entrevista e vai para a tramitação, onde governo e resistência empresarial terão de medir força diante de uma pauta que já encontrou maioria na sociedade.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




