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Lula muda discurso e tenta reconquistar o agronegócio

O presidente Lula (PT) mudou o tom dirigido ao agronegócio no programa de governo preparado para as eleições de 2026. O documento passa a tratar o setor como peça central da economia brasileira e combina produtividade, crédito, inovação e sustentabilidade numa tentativa de ampliar o diálogo com produtores rurais, justamente quando o tarifaço de Donald Trump recoloca as exportações brasileiras no centro da disputa eleitoral.

A mudança foi identificada na comparação com o programa apresentado por Lula em 2022. No novo texto, o agronegócio aparece associado ao peso econômico do setor, à balança comercial e ao Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a proposta eleitoral enfatiza eficiência produtiva, sustentabilidade e incorporação de tecnologia. A estratégia representa uma aproximação discursiva com um segmento que, historicamente, tem apresentado maior resistência ao PT.

Mas a pergunta que interessa ao produtor não é apenas se Lula mudou o discurso. É o que existe de concreto na proposta.

O programa prevê ampliar e diversificar as fontes de crédito rural, reduzir burocracias e aproximar o financiamento das necessidades do setor. Também coloca o agronegócio entre as áreas prioritárias para investimentos em ciência, tecnologia e inovação, com a produtividade sendo tratada em conjunto com a sustentabilidade.

Na prática, o texto tenta falar uma língua conhecida pelo produtor: custo, financiamento, tecnologia, produtividade e acesso a mercado. O desafio eleitoral será transformar essas diretrizes em compromissos que possam ser medidos durante um eventual segundo mandato.

A aproximação ocorre num momento especialmente sensível para o campo. Em 13 de agosto, o governo brasileiro comunicou aos Estados Unidos o início das consultas previstas na Lei da Reciprocidade Econômica para responder às tarifas impostas pelo governo Trump. As sobretaxas atingem cerca de US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras, segundo informações divulgadas nesta quinta-feira.

O conflito comercial aumenta a importância política do agronegócio. O setor precisa de mercados externos, mas também depende de crédito, infraestrutura, seguro, insumos e capacidade de absorver eventuais perdas provocadas por barreiras comerciais.

É nesse ponto que a mudança de linguagem de Lula ganha dimensão eleitoral. O presidente tenta apresentar o governo como parceiro de uma atividade que não pode ser tratada apenas como adversária política do PT.

No Paraná, essa discussão tem peso ainda maior. O agronegócio é uma das principais engrenagens da economia estadual, com forte presença de cooperativas, agroindústrias e cadeias voltadas à exportação. A exposição ao mercado americano já produziu efeitos concretos durante a guerra tarifária iniciada pelo governo Trump.

Levantamento do Sistema FAEP mostrou que os Estados Unidos foram o segundo principal parceiro comercial do Paraná em 2024, com US$ 1,58 bilhão em exportações. Desse total, cerca de US$ 1,01 bilhão corresponderam a produtos agropecuários.

A pauta paranaense para os Estados Unidos não se resume à soja. Inclui produtos florestais, café, pescados, alimentos e outras cadeias que movimentam produtores, cooperativas, transportadores e trabalhadores do interior. O problema, portanto, não termina na porteira da propriedade. Ele chega à indústria, ao transporte, aos portos e à renda dos municípios.

O próprio setor paranaense já vem defendendo diversificação de mercados como proteção contra oscilações cambiais, conflitos internacionais e barreiras comerciais. As cooperativas têm funcionado como amortecedor diante dessas turbulências.

O programa de Lula conversa com esse problema ao combinar produtividade, inovação e diversificação econômica. A diferença está em saber se a promessa eleitoral produzirá instrumentos capazes de reduzir o risco enfrentado pelo produtor.

O crédito é uma das peças mais importantes dessa equação. O Plano Safra 2026/2027 já incorporou mecanismos que associam financiamento a práticas sustentáveis. Produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) regular e determinadas práticas agropecuárias podem obter redução de até um ponto percentual na taxa de juros de custeio. O governo também ampliou o foco em seguro rural, gestão de risco, recuperação de áreas produtivas e inovação tecnológica.

Essas políticas não devem ser confundidas com novas promessas eleitorais. Elas mostram, porém, que parte da linguagem incorporada ao programa de Lula já encontra correspondência em políticas públicas do atual governo.

Outro ponto concreto é a tecnologia. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) vem apresentando a combinação de ciência, inovação, crédito e produtividade como eixo da agricultura brasileira. Em março, o órgão destacou que a produção agrícola do país cresceu quase 70% entre 2010 e 2020, enquanto a área cultivada avançou menos de 40%, associando o resultado a políticas públicas, pesquisa tecnológica e disponibilidade de crédito.

O governo também tem buscado reduzir a dependência externa de insumos. Nesta semana, o Senado aprovou o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que prevê estímulos à produção nacional e financiamento para modernização de fábricas. O texto segue para sanção presidencial.

Para o produtor paranaense, a conta é objetiva. Crédito mais barato, fertilizante disponível, tecnologia, seguro e mercado externo são fatores que interferem diretamente na margem da atividade. Sustentabilidade só ganha adesão ampla quando consegue ser convertida em produtividade, redução de custos, acesso a financiamento ou abertura de mercados.

É justamente aí que Lula terá de enfrentar a parte mais difícil da tentativa de reconciliação com o agro. O discurso pode mudar rapidamente. A relação política, não.

O agronegócio brasileiro reúne interesses muito diferentes. Há grandes exportadores, cooperativas, produtores médios, agricultura familiar, pecuaristas, agroindústrias e milhares de pequenos estabelecimentos que dependem de políticas de crédito e comercialização. Não existe um único eleitor do agro.

Por isso, o programa precisa ser lido menos como uma declaração de amor ao setor e mais como uma tentativa de reposicionar o governo dentro de uma disputa econômica. Lula oferece crédito, tecnologia, produtividade, sustentabilidade e abertura de mercados. O produtor, por sua vez, terá de avaliar se essas propostas resolvem os problemas que aparecem na planilha de custos.

A guerra comercial com Trump torna essa avaliação mais urgente. O governo brasileiro decidiu combinar negociação com mecanismos de reciprocidade, enquanto o setor produtivo busca preservar mercados e evitar que a produção destinada aos Estados Unidos seja empurrada para um mercado interno já pressionado.

Para Lula, existe ainda uma consequência eleitoral. A tentativa de aproximação não significa abandonar a agricultura familiar, historicamente mais próxima do PT. O desafio é ampliar a interlocução sem perder a base tradicional e sem transformar o programa em promessa genérica para agradar todos os segmentos.

No Paraná, a disputa será observada de perto. O estado tem forte presença de cooperativas e uma economia rural integrada ao comércio exterior. Se a proposta de Lula conseguir traduzir crédito, inovação e sustentabilidade em ganhos concretos para o produtor, o discurso poderá ganhar aderência. Se ficar apenas no programa registrado no papel, a distância entre Brasília e o campo continuará sendo explorada pelos adversários.

A pergunta eleitoral, portanto, mudou de lugar. Não basta saber se Lula passou a falar melhor com o agronegócio. Será preciso acompanhar quanto desse novo discurso chegará ao crédito, ao custo dos insumos, ao seguro, à tecnologia e aos mercados do produtor rural.

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