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Lula falou na Globo, mas governo prestigiou pouco a mídia popular

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falou à TV Globo sobre o tarifaço de Trump na semana passada, após passar seis meses sem dar entrevistas à emissora. Foi uma exceção calculada. Mas o que se mantém como regra é a priorização da velha mídia corporativa, com destaque absoluto para o Grupo Globo.

No primeiro semestre de 2025, Lula concedeu apenas 16 entrevistas exclusivas. No mesmo período, seus ministros, líderes e a primeira-dama Janja deram 542 entrevistas à imprensa, sendo 96 delas para veículos do Grupo Globo, ou seja, 19,2% de toda a comunicação pública do governo federal no período.

Enquanto isso, a mídia popular, comunitária e independente foi pouco prestigiada, apesar de ter sido um dos pilares da resistência democrática e da campanha que elegeu Lula. Nem mesmo a EBC, que poderia ser eixo estratégico para democratizar a informação, foi utilizada como canal prioritário.

A imprensa independente ficou à margem da comunicação oficial

Não há registros públicos de entrevistas concedidas por Lula a veículos populares ou alternativos no Brasil em 2025. Nenhuma rádio comunitária, TV sindical, coletivo de periferia ou site progressista teve acesso exclusivo ao presidente no período analisado.

A exceção veio de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, que concedeu uma coletiva em 10 de julho a veículos como TVT, Brasil 247, Fórum, CartaCapital e DCM, todos fora do circuito corporativo. Mas o gesto, ainda que relevante, permanece isolado.

O Blog do Esmael também realizou ao menos duas entrevistas exclusivas com a ministra Gleisi Hoffmann, das Relações Institucionais, uma em Brasília, no mês de abril, e outra em Curitiba, no começo de julho.

A base que elegeu Lula espera mais que gestos simbólicos. Espera reciprocidade política e comunicacional.

Sidônio concentra, mas não amplia a comunicação

Desde que assumiu a Secom, o marqueteiro Sidônio Palmeira imprimiu à comunicação federal uma lógica centralizada e seletiva. O presidente fala menos, e os ministros falam onde há mais audiência e influência. Wellington Dias (44), Paulo Teixeira (38), Gleisi Hoffmann (12) e Janja ocuparam o espaço que antes era exclusivamente de Lula.

Mas o destino das entrevistas revela o padrão: a Globo foi o grupo mais procurado, mesmo com todo seu histórico de hostilidade ao projeto popular. Sidônio, inclusive, concedeu duas entrevistas à emissora. Já os meios alternativos, comunitários ou de base, seguiram sem acesso direto, como regra.

Poder360 e Fintech Magalu: quando a “mídia” serve ao capital

Os dados são do Poder360, veículo ligado à Fintech Magalu, braço financeiro do Magazine Luiza. A fintech atua com Pix, cartões, maquininhas e serviços de pagamento digital, setores diretamente interessados em políticas públicas, visibilidade institucional e verbas de publicidade estatal.

Não há imparcialidade aqui. O monitoramento sobre a comunicação do governo também serve como pressão indireta por mais presença, recursos e influência. Enquanto isso, a mídia que realmente representa o povo, e não os acionistas, segue marginalizada da estrutura formal.

O governo fala com quem sempre falou, e prestigiou pouco quem lhe deu voz

A entrevista de Lula à Globo não é problema em si. O problema é que, ao longo de seis meses, não houve esforço consistente para prestigiar a mídia alternativa e popular, aquela que segurou a democracia nas ruas e nas redes quando a Globo e seus pares silenciavam ou atacavam.

A comunicação do governo parece ainda refém de uma lógica de prestígio que valoriza o centro, o capital e o monopólio informativo. A mudança prometida continua no papel. E a base que sustenta o projeto de transformação social segue esperando mais do que discursos, espera participação concreta, inclusive na comunicação.

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