O Congresso do Peru declarou vaga a Presidência da República nesta sexta-feira (10) e deu posse a José Jerí como novo presidente interino, após destituir Dina Boluarte por “incapacidade moral permanente”.
A decisão foi aprovada por 122 votos e marca mais um capítulo da instabilidade política que assola o país andino desde 2016.
Jerí, até então presidente do Congresso, assumiu o cargo em cerimônia oficial e prometeu conduzir o país até as eleições gerais previstas para julho de 2026.
Em seu discurso de posse, defendeu a reconciliação nacional e prometeu enfrentar a criminalidade que atinge níveis alarmantes.
“O principal inimigo está nas ruas, as gangues criminosas são nossas inimigas e devemos declarar guerra a elas”, afirmou o novo mandatário.
A ex-presidente Dina Boluarte, que havia chegado ao poder em dezembro de 2022 após a queda de Pedro Castillo, não compareceu ao plenário para se defender.
Seu paradeiro é incerto desde que deixou o Palácio do Governo, alimentando rumores sobre possível fuga ou detenção preventiva.
José Jerí é o sétimo presidente do Peru em apenas nove anos, reflexo de uma sequência de mandatos interrompidos por renúncias, escândalos e cassações.
Sua ascensão ocorre em meio a investigações sobre supostos casos de corrupção e abuso de poder, o que lança dúvidas sobre a estabilidade do governo interino.
Grupos de direitos humanos criticaram a escolha do Congresso, lembrando que Jerí foi alvo de denúncia por estupro, arquivada recentemente, e por suspeitas de recebimento de propina enquanto presidia a Comissão de Orçamento.
As acusações reacenderam o debate sobre a moralidade da classe política peruana e o uso seletivo do impeachment.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, reagiu com ironia ao episódio.
Segundo ele, Dina Boluarte “retribuiu com traição” o gesto de confiança de Pedro Castillo, de quem era vice.
Já o próprio Castillo, preso desde 2022, divulgou uma carta acusando o “fujimorismo” e o Parlamento de perpetuarem golpes sob o disfarce da legalidade.
“Hoje, a hipocrisia dos golpistas que levaram Dina Boluarte ao poder quer apagar seus rastros da ditadura”, escreveu o ex-presidente, que classificou o processo como uma nova manobra das elites conservadoras.
A queda de Boluarte e a ascensão de Jerí reforçam o ciclo vicioso de crises que transformou o Peru em um laboratório de rupturas institucionais.
Desde 2016, nenhum presidente eleito completou o mandato.
O país, dividido entre elites conservadoras e movimentos populares, parece condenado a repetir o roteiro de vacâncias e sucessões improvisadas, enquanto a desigualdade e a violência continuam corroendo as bases da democracia.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.

