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Por trás do aumento do IOF, não há apenas um debate técnico sobre arrecadação — há uma disputa silenciosa pelo controle do orçamento público. A narrativa oficial sugere um embate entre governo e Congresso, mas o verdadeiro confronto se dá entre o povo brasileiro e o sistema financeiro, que domina a política fiscal por meio da dívida pública.
O Congresso aparece como arena. O Executivo, como refém. E o mercado, como senhor do tempo. Enquanto isso, o Brasil real paga a conta: com juros altos, impostos regressivos e cortes sociais. A alta do IOF, vendida como medida emergencial, é na verdade o reflexo de um modelo que prioriza especuladores e sufoca direitos.
A questão central não é quanto se arrecada — mas a quem serve o dinheiro arrecadado.
haddad-soa-o-alarme-mas-protege-o-sistema”>Haddad soa o alarme, mas protege o sistema
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sustenta que sem a manutenção da alíquota elevada do IOF, o governo não terá “colchão fiscal” para evitar bloqueios em emendas, programas sociais e investimentos estratégicos. Segundo ele, “não existe plano B viável” para garantir a meta de resultado primário deste ano.
Nos bastidores da Esplanada, técnicos do Tesouro ecoam o tom de urgência. Dizem que a arrecadação via IOF é o “último recurso antes do corte real”. A Fazenda já iniciou contingenciamentos pontuais, mirando despesas não obrigatórias para atravessar o segundo semestre.
Mas o que se apresenta como urgência fiscal, na prática, é a escolha de preservar os compromissos com os credores da dívida — mesmo que isso signifique sacrificar a população com mais impostos regressivos.
A Faria Lima grita que o IOF “trava investimento, emprego e crescimento”. Como se banqueiros tivessem alma, coração — ou mesmo interesse no desenvolvimento nacional.
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Oposição finge indignação, mas protege os mesmos interesses
Na outra ponta da encenação, o relator do Orçamento, deputado Luiz Carlos Motta (PL-SP), foi à imprensa acusar o governo de “empurrar com a barriga” ao manter o IOF elevado. Para ele, a medida é um “tapa-buraco” que escancara o improviso fiscal. “Precisamos acabar com essas gambiarras tributárias”, bradou no Salão Verde da Câmara — enquanto mantinha intactos os privilégios de quem lucra com a dívida.
Motta e líderes da oposição dizem defender uma alternativa: revisão de renúncias fiscais e tributação dos super-ricos. Mas o discurso fica no papel. Nenhum projeto concreto avança. Nenhuma aliança se forma em torno disso. No fundo, a crítica é mais estética que estrutural.
Afinal, governo e oposição divergem nos detalhes, mas convergem na manutenção do essencial: o pagamento sagrado da dívida pública aos especuladores. O que muda é a maquiagem — o roteiro é o mesmo.
Superávit de abril esconde rombo estrutural
Apesar do superávit primário de R$ 17,8 bilhões em abril — o melhor para o mês desde 2022 —, os dados do Tesouro revelam um quadro estruturalmente frágil. A dívida pública bruta já ultrapassa os R$ 7,6 trilhões e segue trajetória ascendente. Segundo o discurso oficial, a única saída seria ampliar a arrecadação e conter despesas obrigatórias. Mas esse é apenas um lado da história.
A leitura fiscalista ignora um ponto essencial: a necessidade urgente de auditar a dívida pública interna, responsável por sugar a maior parte do orçamento federal. Enquanto o governo corta investimentos sociais e aumenta impostos regressivos como o IOF, mais da metade de tudo o que o Brasil arrecada vai direto para o pagamento de juros e amortizações — sem transparência, sem debate, sem contrapartida.
O próprio Haddad reconheceu que a folga de abril foi “pontual”. Técnicos do Ministério estimam que a pressão sobre o caixa será insustentável a partir de julho, quando vencem os primeiros blocos de despesas represadas. O que não se diz, porém, é que o “rombo” que tanto assusta o mercado nasce do modelo que prioriza rentistas em detrimento do povo.
Congresso pressiona, mas não apresenta saída
Enquanto cobra soluções, o Congresso ainda não apresentou nenhuma proposta concreta para substituir o IOF. Há ruídos sobre um novo pacote de reoneração, mas nenhuma medida ganhou tração. A verdade é que a elite política também evita enfrentar a dureza do ajuste.
O cenário mais provável, segundo fontes parlamentares ouvidas pelo Blog do Esmael, é que o decreto do IOF seja mantido até dezembro, com promessa de uma nova negociação para 2026 — ano eleitoral federal, o que, por si só, adiciona nova camada de complexidade.
A quem serve o Estado brasileiro?
O aumento do IOF em 2025 não é um detalhe técnico — é um sintoma de algo muito maior: o colapso de um modelo que opera para manter privilégios do sistema financeiro enquanto sacrifica direitos sociais.
A cada ajuste, vendem a ideia de que “não há alternativa”. Mas há: começa por auditar a dívida pública interna, que consome quase metade do orçamento da União sem qualquer contrapartida produtiva ou transparência. Esse é o verdadeiro rombo — e sobre ele paira o silêncio cúmplice da velha ordem.
O povo é chamado a pagar mais impostos, ver menos investimentos e ouvir que o sacrifício é necessário. Enquanto isso, bancos seguem lucrando com juros que não têm paralelo no mundo. Nenhuma democracia sobrevive assim: sufocando os de baixo para proteger os de cima.
A crise não é fiscal. A crise é de prioridades. E a pergunta que deve ecoar nas ruas, nos parlamentos e nas redações é simples e incômoda: a quem serve o Estado brasileiro?

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




