A Companhia Paranaense de Energia (Copel) entrou no relógio político da crise: a empresa terá 30 dias para entregar à Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) do Senado um plano de ação contra as quedas de energia no Paraná, enquanto a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prepara fiscalização técnica e discute reajuste de tarifa para 24 de junho.
O caso deixou de ser apenas reclamação de consumidor. Na audiência pública de terça-feira (5), produtores rurais, indústria, Copel e Aneel foram colocados frente a frente diante de uma pergunta simples: como a conta pode subir quase 20% se o serviço virou problema recorrente no campo e nas cidades?
A Aneel aprovou a Consulta Pública nº 005/2026 para discutir a Revisão Tarifária Periódica da Copel. A proposta prevê alta de 19,15% para consumidores residenciais, 19,03% em média para baixa tensão, 19,55% para alta tensão e efeito médio de 19,20% para o consumidor. Os índices estão previstos para entrar em vigor em 24 de junho.
A agência informa que a Copel atende cerca de 5,29 milhões de unidades consumidoras em todo o Paraná. Isso significa que o reajuste discutido em Brasília e Curitiba não ficará restrito à planilha do setor elétrico. Ele chega à casa, ao comércio, à indústria e à produção rural.
O dado que mais pesa no debate é o contraste entre tarifa e qualidade. Segundo relatos levados ao Senado, uma granja em São Miguel do Iguaçu, no Oeste do Paraná, perdeu 20 mil frangos após uma queda de energia. Para o produtor, o apagão não é incômodo doméstico. É prejuízo imediato, perda de animal, risco sanitário e quebra de contrato.
A crise também atinge piscicultores e produtores de leite, setores que dependem de energia contínua para manter aeradores, ordenha, resfriamento e equipamentos de manejo. Quando a luz cai por segundos, a produção pode parar. Quando demora a voltar, a conta vira perda de alimento.
A Aneel disse que o consumidor paranaense ficou, em média, cerca de sete horas sem energia em 2025, número ainda dentro do limite regulatório. O problema é que a própria agência reconheceu aumento de reclamações sobre o serviço da Copel e incluiu a companhia em ações de fiscalização técnica previstas para o segundo semestre.
Essa é a virada política do caso. A Copel não está apenas sob crítica de usuários. Está sob cobrança formal no Senado, sob acompanhamento da Aneel e às vésperas de uma revisão tarifária que pode elevar a conta de luz no Paraná em junho. O tema saiu do balcão de atendimento e entrou no calendário institucional.
A Copel atribuiu parte dos problemas ao aumento de eventos climáticos, como tempestades e vendavais, e citou investimentos na ampliação da rede, reforço no número de eletricistas e canais específicos para o setor rural. A empresa também afirmou que o plano em elaboração prevê medidas voltadas especialmente à área rural antes do período de chuvas mais fortes, entre setembro e outubro.
A explicação climática não encerra a cobrança. Se temporal derruba rede, cabe à concessionária mostrar se a manutenção, a equipe de campo, os investimentos e a resposta ao produtor são suficientes. Esse é o ponto que o plano de 30 dias terá de enfrentar com metas, prazo, obra, região atendida e critério de fiscalização.
A pressão vai se espalhar pelo interior. A Câmara de Cascavel convocou audiência pública para 21 de maio sobre a qualidade do fornecimento de energia, segundo a pauta informada ao Blog do Esmael. A data amplia a exposição da Copel no Oeste, região onde a agroindústria depende de energia estável para produzir frango, leite, peixe e proteína animal em escala.
O debate também recoloca a privatização da Copel no centro da disputa paranaense. O Blog do Esmael já mostrou o apagão em Curitiba e a pressão pela reestatização da companhia. Agora, o caso tem três elementos novos: prazo oficial de 30 dias, fiscalização técnica da Aneel e data marcada para a conta subir.
Para o governador Ratinho Junior (PSD), a crise abre flanco político em ano pré-eleitoral. A privatização foi vendida como modernização. O consumidor, porém, julga pelo que aparece na fatura e pelo que acontece quando a luz cai. Se a tarifa sobe e a qualidade não acompanha, o discurso de eficiência vira cobrança de rua, de granja e de fábrica.
A conta de luz, no Paraná, virou teste de realidade para a Copel privatizada. O prazo de 30 dias dirá se haverá plano concreto ou apenas resposta burocrática a um problema que já matou produção, irritou consumidores e pode pesar no bolso a partir de 24 de junho.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
Leia também no Blog do Esmael: Entenda por que a conta de luz sobe sem mais consumo; Como ler a conta de luz e entender a tarifa; Lula puxa STF contra bomba fiscal do Senado

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




