A conta de luz terá nova pressão a partir de 1º de julho de 2026, depois que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) concluiu o cálculo das tarifas de transmissão para o ciclo 2026/2027, com R$ 54,95 bilhões em receitas, alta de 9,41% e impacto médio estimado de 1,1% ao consumidor final. No Paraná, o dado nacional cai direto no colo da Copel privatizada e atravessa o discurso do governo Ratinho Junior (PSD) sobre eficiência, tarifa e bolso.
A alta não aparece sozinha na fatura. Ela entra no sistema elétrico como custo de transmissão, passa pelos processos tarifários das distribuidoras e chega ao consumidor que já calcula mercado, aluguel, condomínio, luz, água e transporte. Família, comércio, indústria, produtor rural e pequeno negócio pagarão a estabilidade regulatória que o setor elétrico vende como previsibilidade.
O ponto político é simples: quando a água baixa, Ratinho tenta vestir a roupa de benfeitor; quando a luz sobe, o governo joga a conta no sistema. Só que o Paraná conhece o caminho da privatização. A Copel deixou de ser uma estatal controlada pelo Estado e passou a operar como corporação de capital disperso desde agosto de 2023. A promessa era eficiência. A pergunta que sobra na fatura é quem fica com o ganho e quem fica com o custo.
A Aneel afirma que o novo ciclo de transmissão vale de 1º de julho de 2026 a 30 de junho de 2027. O cálculo envolve 356 contratos de concessão e 258 transmissoras. A agência sustenta que o impacto médio de 1,1% revela estabilidade no repasse dos custos de transmissão às tarifas finais. Para o consumidor, no entanto, estabilidade de planilha não paga boleto. O número pequeno no percentual vira despesa real quando somado a reajustes, bandeiras, encargos, tributos e consumo de inverno.
No Paraná, a Copel privatizada virou símbolo dessa nova etapa. A companhia segue responsável por distribuição de energia para a maioria esmagadora dos municípios paranaenses, mas sua lógica societária mudou. O antigo patrimônio público agora fala com o mercado, com acionistas, com regras de governança privada e com uma base de consumidores cativos que não escolhe a distribuidora na esquina.
É aí que a tarifa deixa de ser assunto técnico e vira pauta eleitoral. A energia elétrica pesa no carrinho do supermercado, no preço do pão, na conta da padaria, na irrigação do produtor, no condomínio do trabalhador e no custo da pequena indústria. Uma alta média nacional de 1,1% na transmissão não é a conta inteira, mas é mais um tijolo no muro tarifário que separa discurso de eficiência e vida real.
O contraste com a água escancara o problema. Ratinho Junior anunciou redução de 25% na tarifa mínima de água e esgoto, mas o desconto não nasceu de benevolência do Palácio Iguaçu. O dinheiro vem do precatório bilionário da Sanepar, pago pela União, depois de disputa judicial sobre imunidade tributária. A Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar) decidiu destinar integralmente cerca de R$ 4 bilhões à modicidade tarifária.
A decisão foi precedida por pressão política, ação de consumidores e intervenção institucional. A controvérsia chegou ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), onde a Associação Paranaense de Defesa dos Direitos do Consumidor (APDC) questionou a tentativa de manter 25% do precatório fora da devolução tarifária integral. A denúncia apontou que os usuários teriam suportado, nas contas de água e esgoto, os custos do tributo cobrado indevidamente ao longo de anos.
A Sanepar resistiu. Nos documentos do processo, a companhia defendeu que a regra regulatória vigente permitia destinar 25% do valor à própria empresa e 75% à modicidade tarifária. Em termos práticos, a disputa colocou de um lado consumidores que pagaram a conta por décadas e, de outro, uma companhia de serviço público com acionistas e interesse patrimonial sobre um precatório bilionário.
A Agepar mudou o jogo ao determinar que os recursos sejam usados integralmente para aliviar a tarifa. Metade do valor irá para investimentos não onerosos, e a outra metade financiará descontos diretos nas faturas. O abatimento de 25% valerá apenas sobre a tarifa mínima de água e esgoto, por cerca de 30 meses, e não sobre todo o consumo. A diferença é relevante porque impede propaganda inflada sobre benefício que não alcança a conta inteira.
Na água, portanto, Ratinho colhe o bônus político de uma decisão regulatória que não começou como favor de governo. Na luz, a Copel privatizada entra no radar porque a tarifa seguirá carregando custos sistêmicos sobre os quais o consumidor tem pouca ou nenhuma margem de defesa. O governo “dá” na água, depois de ser empurrado por pressão e controle externo; o sistema tira na energia, com a fatura chegando todo mês.
A leitura eleitoral é inevitável. Em 2026, qualquer candidato que falar em eficiência do Estado, privatização, agência reguladora e responsabilidade fiscal terá de responder uma pergunta doméstica: a conta baixou para quem? Não basta dizer que o sistema ficou mais previsível. A previsibilidade do investidor não pode ser mais importante que a previsibilidade da família que tenta fechar o mês.
A Copel privatizada precisa sair do discurso abstrato. Se a promessa era serviço melhor e tarifa mais racional, o consumidor paranaense tem direito a ver isso na conta. Se a resposta for apenas planilha regulatória, reajuste homologado e comunicado ao mercado, a privatização terá mudado o dono da narrativa, não o peso da fatura.
A água e a luz agora contam a mesma história por caminhos diferentes. Na Sanepar, o dinheiro só voltou ao consumidor depois de disputa, pressão e decisão regulatória. Na Copel, a alta de transmissão mostra que o bolso paranaense continua exposto a um setor essencial em que estabilidade para empresas pode significar aperto para famílias.
O Blog do Esmael seguirá acompanhando a tarifa de energia, a aplicação do desconto da água e o comportamento das empresas privatizadas ou sem controle estatal definido no Paraná. Compartilhe esta matéria e acompanhe a cobertura sobre tarifa, privatização e poder no estado.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




