Direita corre para impedir vitória de Lula no 1º turno; Ciro Gomes no PSDB atrapalha petista e reabre ferida do golpismo; Flávio promete soltar Bolsonaro e assusta o centro.
O ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes (PSDB-CE) admitiu, no sábado (25), em São Paulo, que decidirá em maio se aceita o convite de Aécio Neves para disputar pela quinta vez a Presidência da República. A dúvida tira Ciro da rota do governo do Ceará e o recoloca no papel que o Blog do Esmael já havia apontado: uma peça útil para a direita tentar impedir Lula de vencer no primeiro turno.
A frase de Ciro ao comentar o convite tucano resume o drama: se “tivesse juízo”, ele não voltaria à corrida presidencial. Mesmo assim, ele não fechou a porta.
O convite partiu do presidente nacional do PSDB, deputado mineiro Aécio Neves, que tenta vender Ciro como “alternativa à polarização”. O tucano já disputou a Presidência em 1998, 2002, 2018 e 2022, sem chegar ao segundo turno.
Em 2022, Ciro teve seu pior resultado nacional. Ficou em quarto lugar, com pouco mais de 3% dos votos, atrás de Lula, Jair Bolsonaro (PL) e Simone Tebet (PSB), então no MDB.
A movimentação não nasce de força espontânea de Ciro. Nasce do medo da direita.
O Blog do Esmael publicou em 15 de abril que a direita passou a correr para evitar uma vitória de Lula no primeiro turno. Na pesquisa Genial/Quaest, Lula apareceu com 37% no primeiro turno, contra 32% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enquanto Ronaldo Caiado (PSD-GO), Romeu Zema (Novo-MG) e outros nomes da oposição ficaram bem atrás.
A regra é simples: para vencer no primeiro turno, Lula precisa alcançar metade mais um dos votos válidos. Se a direita não consegue unificar um nome forte, tenta aumentar o número de candidaturas para embaralhar a largada.
É nesse ponto que Ciro volta ao mapa nacional.
No Ceará, ele lidera a disputa estadual. O Datafolha divulgado em março mostrou Ciro com 47% das intenções de voto para o governo, contra 32% do governador Elmano de Freitas (PT). Eduardo Girão (Novo) apareceu com 5%.
A ida de Ciro para a Presidência teria custo local. O tucano deixaria a eleição cearense sem seu principal adversário contra o PT e mexeria na costura com o PL, que vinha sendo ensaiada no estado.
Ciro colocou em xeque a aliança com o PL no Ceará após o convite de Aécio. O acerto interessava a Flávio Bolsonaro (PL), mas desagradava a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que prefere Eduardo Girão para enfrentar Elmano.
O nó é nacional. Flávio Bolsonaro tenta se apresentar como versão mais moderada do bolsonarismo, mas carrega a promessa de libertar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. O Washington Post tratou a candidatura como missão familiar para tirar Bolsonaro da prisão.
O próprio Blog do Esmael registrou, neste sábado (25), que essa promessa atrapalha a tentativa de Flávio Bolsonaro de conquistar o centro. A candidatura fica presa à anistia, ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao 8 de Janeiro e à revanche contra as instituições.
Ciro, portanto, aparece como saída auxiliar para um campo conservador sem palanque único nos estados, sem consenso nacional e com um candidato bolsonarista que fala mais da situação judicial do pai do que de um projeto de país.
Aécio tenta apresentar o movimento como centro. A conta eleitoral mostra outra coisa: Ciro pode tirar voto de Lula na largada, segurar parte do eleitorado antipetista que rejeita Flávio e impedir que a disputa presidencial acabe já no primeiro turno.
Há uma contradição evidente.
No Ceará, Ciro seria favorito contra Elmano. No Brasil, voltaria a uma corrida que já lhe deu quatro derrotas. A diferença é que, em 2026, sua eventual candidatura pode valer menos pelo que ele pode ganhar e mais pelo que pode tirar de Lula.
Essa é a função de uma arma secreta: não precisa vencer a guerra sozinha. Precisa alterar o campo de batalha.
Ciro decidirá em maio se troca o Ceará por mais uma campanha ao Planalto. Até lá, a direita mede se ele serve como candidato de verdade ou como instrumento para levar Lula ao segundo turno.
A decisão de Ciro interessa menos ao PSDB do que ao bloco anti-Lula. Se ele entrar, a campanha presidencial ganha mais um nome, mas o conflito central continua o mesmo: Lula tenta liquidar a disputa cedo, enquanto a direita procura qualquer caminho para esticar a eleição.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




