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- bolsonaro-e-a-ironia-da-tornozeleira-eletronica”>A perna esquerda de Bolsonaro e a ironia da tornozeleira eletrônica
- A tornozeleira como símbolo da queda
- O peso da imagem
- Um sinal dos tempos
- A chantagem tarifária de Trump
- Quando o processo tem capa: o voto de Luiz Fux e o contraste com Lula
- Leia também no Blog do Esmael:
bolsonaro-e-a-ironia-da-tornozeleira-eletronica”>A perna esquerda de Bolsonaro e a ironia da tornozeleira eletrônica
Como é definida a perna onde a tornozeleira é colocadaO que motivou Alexandre de Moraes a endurecer contra BolsonaroEduardo Bolsonaro, Trump e o cerco geopolítico ao STF
Dezenas de leitores do Blog do Esmael lançaram a mesma pergunta, com pitada de sarcasmo e muita curiosidade: por que Jair Bolsonaro, ícone da extrema direita, não colocou a tornozeleira eletrônica na perna direita?
Um desses leitores é o jornalista e advogado José Diniz, de Curitiba, que foi lacônico: “Deveria ser na perna direita.”
O questionamento é legítimo, ainda que envolto em ironia política. Afinal, o ex-presidente vive repetindo, com orgulho, que é “de direita, conservador e cristão”. Ao ser fotografado com a tornozeleira na perna esquerda, não faltaram piadas sobre a simbologia do gesto. Alguns leitores sugeriram que “até a tornozeleira abandonou a direita”.
Mas a resposta para a escolha do lado é menos ideológica e mais técnica: o equipamento é colocado onde for mais viável, segundo critérios práticos definidos pelas autoridades. Em geral, opta-se pela perna esquerda, por padrão. A decisão leva em conta fatores como circulação, lesões, conforto e facilidade para instalação do dispositivo por agentes penitenciários.
A lógica é semelhante ao uso do relógio de pulso. Mesmo que a pessoa seja destra ou canhota, a maioria coloca o relógio no pulso esquerdo, por comodidade e hábito. O mesmo vale para a tornozeleira: não é uma questão de ideologia, mas de praticidade operacional.
A tornozeleira como símbolo da queda
Bolsonaro foi obrigado a usar o dispositivo por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da ação penal que apura a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.
As medidas cautelares impostas a Bolsonaro incluíram:
- Uso de tornozeleira eletrônica;
- Recolhimento domiciliar noturno entre 19h e 6h, de segunda a sexta-feira, e integral nos fins de semana e feriados;
- Proibição de aproximação e de acesso a embaixadas e consulados de países estrangeiros;
- Proibição de manter contato com embaixadores ou autoridades estrangeiras;
- Proibição de uso de redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros.
- Proibição de manter contato com Eduardo Bolsonaro e investigados dos quatro núcleos da trama golpista.
A medida foi cumprida na manhã desta sexta-feira (18) pela Polícia Federal em Brasília e faz parte de uma nova operação que apura crimes de obstrução de justiça, coação no curso do processo e atentado contra a soberania nacional.
O peso da imagem
A imagem de um ex-presidente da República, tido como “mito” por sua base, usando tornozeleira eletrônica, é devastadora para o bolsonarismo. Ainda mais para um político que ergueu seu discurso em torno de “lei e ordem”.
Bolsonaro agora está sendo monitorado por satélite, em tempo real, como qualquer outro réu que responde a processo criminal. Isso inclui alertas automáticos em caso de violação do perímetro de circulação ou tentativa de retirada do equipamento.
Se a escolha da perna foi técnica, o efeito simbólico é inescapável. A esquerda do corpo, tão combatida no plano ideológico por Bolsonaro, agora é a base física da vigilância que o cerca.
Um sinal dos tempos
O Brasil vive uma virada histórica: da faixa presidencial à tornozeleira eletrônica, Bolsonaro tornou-se um símbolo do declínio do autoritarismo travestido de populismo.
No fim das contas, não importa a perna, o lado ou a ideologia, importa o caminho que levou até ali. A tornozeleira na perna esquerda é apenas mais um detalhe no roteiro jurídico e político que ainda se desenha. E o Blog do Esmael seguirá acompanhando cada passo.
A chantagem tarifária de Trump
Enquanto isso, o governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, empenha-se na retaliação econômica contra o Brasil, impondo sobretaxas a produtos agrícolas e industriais. Nos bastidores, a diplomacia brasileira entende o gesto como pressão explícita em favor de Bolsonaro, em meio à tensão institucional entre Executivo brasileiro e STF.
Trump, aliás, é constantemente defendido pela bancada bolsonarista. Mesmo com o Brasil sendo prejudicado diretamente pela nova política tarifária americana, parlamentares bolsonaristas exibiram faixas de apoio ao republicano durante sessões na Câmara. É como se a lealdade ideológica estivesse acima dos interesses nacionais.
Quando o processo tem capa: o voto de Luiz Fux e o contraste com Lula
É lamentável, mas previsível: o ministro Luiz Fux parece decidir conforme a cara do freguês. Em 2018, com Lula preso em Curitiba, Fux negou habeas corpus para que o então candidato pudesse conceder entrevistas à imprensa durante a campanha eleitoral. Alegava-se, na época, que isso colocaria em risco a “normalidade” do processo. A história registrou o silêncio imposto.
Agora, em 2025, Fux ressuscita um espírito garantista de ocasião ao votar contra as medidas restritivas impostas a Jair Bolsonaro, entre elas:
- o uso de tornozeleira eletrônica;
- a proibição de uso de redes sociais;
- e o recolhimento domiciliar noturno.
Mesmo vencido por 4 votos a 1, Fux sustentou que não há provas concretas de tentativa de fuga ou de obstrução de Justiça por parte do ex-presidente. Para ele, as cautelares seriam desproporcionais frente aos direitos políticos e civis de Bolsonaro.
A contradição salta aos olhos: em 2018, Fux não demonstrou o mesmo apego aos princípios da legalidade e da presunção de inocência ao julgar os pedidos da defesa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na ocasião, endossou decisões da Lava Jato, hoje reconhecidamente parciais, que impediam qualquer manifestação pública de Lula, mesmo sendo ele líder nas pesquisas.
Essas decisões foram mais tarde anuladas pelo próprio STF, em um julgamento que expôs os abusos de Sergio Moro, que hoje é senador do Paraná pelo União Brasil. Fux, no entanto, jamais reviu sua postura.
Ainda assim, é preciso dizer: o Blog do Esmael não concorda com ilegalidades processuais, venham de onde vierem. A censura prévia, inclusive a imposição de silêncio por meio de restrições desproporcionais, não pode ser admitida em um Estado Democrático de Direito.
O processo, a nosso ver, não pode ter capa. Nem cor. Nem lado.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




