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Admirável mundo novo | Artigo especial de Joel Benin

Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, venceu o primeiro turno e disputa o segundo com Lula (PT), em 25 de outubro, quando será decidido se o Brasil tolera concentração de poder

Por Joel Fernando Benin*

O candidato da extrema direita à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, venceu o primeiro turno das eleições de 2026. Isso é fato. A extrema direita e boa parte da direita que apoiam o bolsonarismo elegeram a maioria do Congresso Nacional — Câmara dos Deputados e Senado Federal — e a maioria dos governadores dos estados.

O PL fez uma campanha organizada e lançou uma mensagem política unificada em todo o Brasil. Para o segundo turno, recebeu o apoio de alguns partidos do Centrão. A tática do Bolsonaro moderado parece ter funcionado até agora. Mas ainda há muitas coisas para acontecer.

O Presidente Lula e sua campanha, que estavam muito otimistas no primeiro turno, rapidamente entenderam o problema. Lula é experiente, conhecido no mundo todo e já governou o Brasil três vezes, incluindo o atual mandato. Seu governo promoveu uma gestão de reconstrução, retomou programas sociais essenciais e buscou inserir o país nos desafios apresentados pelo avanço da revolução tecnológica e da inteligência artificial. Tem como vice Geraldo Alckmin, igualmente experiente, que traz na bagagem quatro governos bem-sucedidos no estado de São Paulo.

Lula reagiu. Montou uma nova coordenação de campanha, organizou um exército nas redes sociais e foi às ruas falar diretamente com o povo.

Lula tem muita história. Ele sempre encarnou a mudança e a esperança. Mas a política é assim: é preciso reafirmar, todos os dias, aquilo que somos e aquilo em que acreditamos. Essa premissa vale inclusive para os presidentes e para aqueles que pretendem chegar à Presidência.

O que parecia impossível nos primeiros dias do segundo turno — virar as eleições — tornou-se muito possível. Começaram a surgir manifestações espontâneas de apoio a Lula em todo o país. Foram os jovens estudantes que deram início a esse movimento, mas ele está se tornando um espaço de todos.

Como aprendemos com a nossa cultura futebolística, treino é treino e jogo é jogo. Quem vencer o segundo turno leva. Coincidência ou não, nas cinco Copas do Mundo conquistadas pela Seleção Brasileira, os gols marcados no segundo tempo foram decisivos, inclusive na Copa de 1994, cujo título foi decidido nos pênaltis.

Na verdade, minha prioridade aqui é tentar fazer uma avaliação de riscos. O que realmente está em jogo?

Por que estou classificando Flávio Bolsonaro como representante da extrema direita? Pelo alinhamento político dele com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump; com o presidente argentino, Javier Milei; com Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro da Hungria e aliado de Jair Bolsonaro, seu pai, que chegou a se refugiar na embaixada húngara em Brasília diante da possibilidade de prisão relacionada à investigação sobre a tentativa de golpe de Estado; e com a extrema direita europeia, representada por Marine Le Pen, na França, e pelo partido de extrema direita da Alemanha, entre outros.

Nesse caso, não se trata apenas de uma opinião pessoal. Trata-se de uma classificação política que deve ser examinada à luz das posições públicas do candidato, de suas alianças e de suas relações com lideranças e movimentos políticos nacionais e internacionais.

Essa afirmação não pretende desqualificar Flávio Bolsonaro. Pelo contrário: pretende qualificá-lo politicamente, isto é, identificar a característica política que considero mais importante no candidato que venceu o primeiro turno.

O Brasil está entre as maiores economias do mundo, e todos estão olhando para cá, principalmente Trump.

Um amigo meu me indagou:

— Mas o Flávio Bolsonaro está dizendo que vai manter o programa Minha Casa, Minha Vida, diminuir o valor das parcelas e estabelecer o Bolsa Família como piso, além de oferecer outras coisas maravilhosas. E aí?

Ele está mentindo! Esses programas já foram criados pelo presidente Lula, que vem ampliando os investimentos destinados a eles. São políticas estruturantes, disse meu amigo, indignado.

De fato, Flávio faltou com verdade sobre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e teria feito isso em poucas horas, no mesmo dia, apresentando versões muito diferentes dos fatos.

Pela manhã, quando um jornalista lhe perguntou se havia recebido de Vorcaro R$ 130 milhões para produzir um filme sobre seu pai, Flávio afirmou que não o conhecia e reagiu como se a pergunta fosse uma ofensa. No início da tarde, quando a imprensa repercutiu a notícia e apresentou material que, por meio de mensagens, indicaria que ele havia pedido dinheiro, Flávio já não conseguiu sustentar a mesma versão. Confirmou a relação financeira, mas afirmou que se tratava de uma relação privada.

Finalmente, antes do anoitecer, o candidato à Presidência prometeu fazer uma ampla prestação de contas sobre o uso do dinheiro. Essa prestação de contas nunca foi apresentada.

Foi uma coleção de versões contraditórias e declarações que, se comprovadas como mentiras deliberadas, mereceria um lugar no Guinness Book. O problema é que, quando alguém é profissional no que faz, mesmo que se trate de algo desprezível, pode convencer muita gente.

Vamos imaginar a seguinte hipótese:

Caso Flávio Bolsonaro vença Lula no segundo turno e se torne o próximo presidente do Brasil, o sistema de freios e contrapesos previsto na Constituição de 1988, que conhecemos como um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes, poderá ser profundamente comprometido.

A nossa democracia, construída com amplo apoio popular e com o sacrifício de muitos brasileiros, prevê a convivência harmônica entre os três Poderes da República. Embora já se encontre abalada, dificilmente sobreviverá a uma concentração tão acentuada de poder sem sofrer consequências graves.

O que estou dizendo não é uma pregação do medo, muito menos uma chantagem política. É uma interpretação baseada na coerência e no bom senso, diante dos riscos que considero presentes nesse cenário.

No primeiro turno das eleições, a extrema direita não venceu apenas Lula: ela também ofuscou a direita tradicional. Quem fez essa afirmação foi o candidato a presidente Renan Santos, que tentou apresentar algo novo para dar vida a uma nova direita no país. Renan disse mais: não haverá espaço para ninguém.

Quando ele disse “ninguém”, entendo que quis dizer ninguém da direita, ninguém da esquerda, ninguém do centro, ninguém entre os democratas, os independentes ou qualquer outra força ou segmento social existente.

Não creio que o centro democrático e a direita democrática embarquem nessa aventura e carreguem esse perigo nas costas. Vamos admitir: nestas eleições, estamos aprendendo muitas coisas com o líder do partido Missão.

Flávio Bolsonaro já está afirmando que pretende eleger o presidente da República, o presidente do Senado Federal e o presidente da Câmara dos Deputados, além de indicar mais quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal.

Segundo essa perspectiva, caso seja eleito, poderá indicar um nome para a vaga anteriormente destinada a Jorge Messias, cuja indicação foi rejeitada pelo Senado, e preencher outras três vagas que se abririam em 2027. Além disso, segundo aliados do bolsonarismo eleitos para o Senado, haveria a intenção de aprovar o impeachment de pelo menos outros dois ministros do STF.

Não estou dizendo que o STF e o Judiciário não mereçam uma reforma. A questão é outra: essa concentração de poder não tem as características de uma revolução bolsonarista contra o sistema. Pelo contrário, tudo indica que o bolsonarismo poderá se transformar em um governo extremado, com alto risco para o funcionamento da democracia.

Os líderes do bolsonarismo fazem parte do sistema e dele se servem.

Nunca, desde o fim da ditadura civil-militar e a reabertura democrática dos anos 1980, uma única força política conseguiu reunir condições para exercer tamanha influência sobre os três Poderes da República. E sabe quem impediu, até agora, que isso acontecesse de forma absoluta? O voto soberano dos brasileiros.

Os juristas e a elite política não são os únicos capazes de interpretar o sistema de freios e contrapesos previsto na Constituição. Graças a Deus, essa compreensão já faz parte do debate público. Até agora, desde a redemocratização, os eleitores brasileiros nunca deram um cheque em branco a uma única força política, nem delegaram a qualquer partido ou agente público o direito de exercer um poder absoluto.

*Joel Fernando Benin é advogado, historiador e especialista em Administração Pública pela FGV.